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quinta-feira, 29 de abril de 2010
O Crepúsculo dos Ídolos
cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
Ler Nietzsche:
*
Mazzino Montinari
Resumo: Partindo do pressuposto de que toda interpretação filosófica de
Nietzsche deve ter por base um trabalho filológico-histórico, o presente artigo
visa a fazer uma apresentação do Crepúsculo dos ídolos. Nesta perspectiva,
reconstrói-se a gênese do livro do interior do projeto da Vontade de potência
para, enfim, concluir que, do ponto de vista filosófico, Crepúsculo dos ídolos
mostra que é através do pensamento do eterno retorno que a superação da
metafísica pode se realizar.
Palavras-chave: filologia – história – vontade de potência – eterno retorno
1. Em 3 de setembro de 1888, em um esplêndido, o mais belo dos
dias que Nietzsche vira em Sils-Maria, na Engadina – “uma força luminosa
de todas as cores, um azul no lago e no céu, uma claridade do ar,
totalmente inesperada” – ele escreveu o Prefácio da “Transvaloração de
todos os valores”. Nas semanas anteriores, sua vida se desorganizara;
impulsionado pelo espírito, acordava muitas vezes às duas da madrugada
e anotava o que antes lhe passara pela cabeça: nesses momentos,
ouvia como seu senhorio abria a porta com cuidado e se esgueirava para
caçar cabras alpinas (a Meta von Salis, 07.09.1888). Ele talvez também
caçasse cabras alpinas... Estava no início de um novo trabalho e acreditava
ter encontrado a forma de comunicá-lo, para publicar a obra independente
“Transvaloração de todos os valores”, cujo primeiro livro cha-
* Artigo originalmente publicado em Nietzsche-Studien, 13, 1984.
Tradução de Ernani Chaves.
78 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
mava-se O anticristo. Mas, a partir do material reunido até então surgiu
também um outro escrito, inicialmente intitulado “Ociosidade de um
psicólogo” e, depois, Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o
martelo. Este era o resumo da sua mais essencial heterodoxia filosófica,
a comunicação do resultado mais maduro do seu filosofar no último
ano. Ambos, o projeto da “Transvaloração de todos os valores” em quatro
livros e o Crepúsculo dos ídolos, surgiram do material da “Vontade
de potência. Tentativa de uma Transvaloração de todos os valores”, obra
entrevista até o fim de agosto de 1888.
2. Antes de mais nada, e para evitar mal-entendidos acerca das
minhas considerações sobre Crepúsculo dos ídolos, gostaria de dizer
que o trabalho editorial, filológico, é um trabalho preliminar, que ele
sozinho não é suficiente para a compreensão de Nietzsche, mas que pode
deixar o caminho livre para ela. A filologia, ou seja, a história, pode
franquear em três aspectos o caminho para a compreensão do Crepúsculo
dos ídolos:
a) na medida em que o coloca como a formulação filosófica e artística
de suas idéias entre o começo e o verão de 1888;
b) na medida em que estabelece sua íntima conexão com os fragmentos
póstumos e, com isso, com a totalidade do desenvolvimento das idéias
de Nietzsche;
c) na medida em que ela, através da exploração das fontes, coloca o
Crepúsculo dos ídolos em uma frutífera conexão com o mundo anterior,
contemporâneo e com a posteridade de Nietzsche.
Os fragmentos póstumos, no sentido amplo desta palavra,
formam aqui o pano-de-fundo onde se desenha este momento separado
de nós, mas também acoplado a nós. A história do surgimento do Crepúsculo
dos ídolos é, ao mesmo tempo, a história das intenções literárias
de Nietzsche em relação a todo o material que ele reunira até então,
tendo em vista a “Vontade de potência”; isto significa que se decifra o
mistério do Crepúsculo dos ídolos colocando-o em uma conexão primeira,
uma conexão de todo modo sui generis, na medida, enfim, em
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 79
que devem ser encontradas as referências às fontes de Nietzsche, principalmente
nos fragmentos póstumos. Gostaria de manter a diferença
dos três pontos de vista, tal como os enumerei e fundamentei acima e
isso pelas razões que se seguem: o primeiro ponto diz respeito ao Crepúsculo
dos ídolos, na medida em que ele foi publicado, transmitido em
uma forma muito específica; o segundo, na medida em que até a sua
publicação ele era, em todo caso, parte de fragmentos igualmente bem
específicos; o terceiro, na medida em que descobre as fontes, as leituras
e os interlocutores de Nietzsche.
3. Acerca da função do Crepúsculo dos ídolos entre o Caso Wagner,
publicado um pouco antes e os seus últimos escritos – O anticristo,
Ecce homo – Nietzsche escreveu no “Prefácio”: “Este pequeno escrito é
uma grande declaração de guerra”. Nietzsche se compreende em guerra
pelo fortalecimento da “Transvaloração de todos os valores”, pelo questionamento
dos deuses. Certamente não é examinado nenhum deus
temporal, mas sim os deuses eternos, que aqui são espicaçados com o
martelo, como com um tridente. O martelo, com o qual Nietzsche filosofa
em seu livro, é mais o martelo do minerólogo do que a rude ferramenta
da brutalidade; sim, um tridente, através do qual como resposta “ouvese
esse famoso som oco”, “que fala de entranhas insufladas”. O Crepúsculo
dos ídolos contém 10 seções de extensão desigual. As “Sentenças e
setas”, uma coletânea de 44 sentenças, correspondem a uma antiga
tradição dos escritos de Nietzsche e também a um exercício literário
neste gênero, com o qual nos deparamos, freqüentemente, em seus póstumos
a partir de 1882. Elas são uma espécie de pré-paração (Vor-Spiel)
séria para as exposições (Abhandlungen) filosóficas que se seguem.
A primeira máxima da coletânea – “A ociosidade é o início de
toda psicologia. Como? Seria a psicologia um – vício?”– existia há sete
anos nos manuscritos de Nietzsche. Ela era – além disso – pensada,
originariamente, como uma retomada do primeiro título de Crespúsculo
dos ídolos (“Ociosidades de um psicólogo”). Um caderno de anotações
de Gênova, da época imediatamente anterior à redação da Gaia ciência,
contém, de fato, o seguinte fragmento: “A ociosidade de Zaratustra é o
80 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
início de todos os vícios” (fragmento póstumo 12 (112) do outono de
1881; KSA, 9, p. 596) e, ao final, ainda como título: “A ociosidade de
Zaratustra. de F(riedrich) N(ietzsche) ” (fragmento póstumo 12 (225)
do outono de 1881; KSA, 9, p. 616). Sete anos depois, Nietzsche não
apenas retorna à sentença, mas também ao título. Neste meio-tempo,
ele transcreveu a sentença em um caderno do início de 1888, em uma
forma ligeiramente modificada: “A ociosidade é o início de toda filosofia.
– Em conseqüência – é a filosofia um vício?...” (fragmento póstumo
11 (107) de novembro de 1887 a março de 1888; KSA, 13, p. 51). No
manuscrito, filosofia; no livro publicado, psicologia: isto nos permite
talvez compreender melhor o que Nietzsche pensava sob a palavra psicologia
(e filosofia). Mas também (compreender melhor a conexão) Zaratustra
– Filosofia – Psicologia. O otium filosófico como início de todos
os vícios.
A ociosidade de Zaratustra tornou-se na primeira versão do título
do Crepúsculo dos ídolos, “Ociosidade de um Psicólogo” (fragmento
póstumo 22 (6) de setembro a outubro de 1888; KSA, 13, p. 586). Quando
recebeu as primeiras folhas de correção da gráfica de Leipzig, Peter
Gast (aliás Heinrich Köselitz), auxiliar e discípulo de Nietzsche, escreveu
em 20 de setembro de 1888: “O título ‘Ociosidade de um psi(cólogo)’”
soa-me demasiado modesto, quando me lembro como ele poderia agir
sobre as pessoas comuns: o senhor dirigiu sua artilharia para as montanhas
mais elevadas, o senhor tem canhões como nunca houve antes e
precisa apenas atirar às cegas, para aterrorizar os arredores. Um passo
de gigante sob o qual as montanhas estremecem nas origens, não é mais
nenhuma ociosidade. Além disso, na nossa época, a ociosidade é costume
após o trabalho e o Mü (de “Müssigang”) aparece também em Müdigkeit
(cansaço).(1) Ah, eu suplico como só um homem incapaz deve suplicar:
um título espetacular, brilhante”. A retórica de artilheiro deste Peter Gast
encontrou ouvidos exagerados e até mesmo sua manifestação em algumas
passagens do Ecce homo. Nietzsche respondeu sete dias depois (em 27.9):
“No que diz respeito ao título, no seu reparo tão humano, minhas próprias
reflexões lhe anteciparam: finalmente, a partir das palavras do Prefácio,
encontrei a fórmula que também talvez satisfaça suas necessidades. O
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que o senhor escreveu acerca da ‘grande artilharia’, devo simplesmente
adotar em meio à escrita final do primeiro livro da ‘Transvaloração’.
Caminha-se para uma horrível detonação”. O novo título – “Crepúsculo
dos Ídolos” – era também uma maldade contra Wagner, como Nietzsche
observara na mesma carta: Wagner compôs um “Crepúsculo dos deuses”.
As detonações da Transvaloração encontrariam então sua conclusão
desmesurada em toda “Lei contra o cristianismo”, que Nietzsche anuncia
no “primeiro dia do ano um (em 30 de setembro de 1888 do falso calendário)”,
no final de O anticristo. O Prefácio do Crepúsculo dos ídolos
também era datado de 30 de setembro de 1888, “no dia em que foi
concluído o primeiro livro da Transvaloração de todos os valores (isto
é, O anticristo)”.
A impressão do Crepúsculo dos ídolos terminou no início de novembro.
Neste meio-tempo – após a conclusão do manuscrito O
anticristo – surgiu um outro escrito: Ecce homo. Neste, Nietzsche trabalhou
até o fim de dezembro e o concluiu ao mesmo tempo que Nietzsche
contra Wagner e os Ditirambos de Dioniso. Ecce homo fora pensado,
inicialmente, como um apêndice do Crepúsculo dos ídolos; ele ganhou
sua própria autonomia, mas manteve do Crepúsculo dos ídolos o último
capítulo: “O que devo aos antigos”.
O Crepúsculo dos ídolos representa uma espécie de obra-gêmea
de O anticristo, sobretudo da perspectiva da história de seu surgimento.
Do mesmo modo que O anticristo, ele tem suas origens em um e mesmo
material; eles até mesmo coexistem durante um longo tempo, em
uma boa terça parte de um único manuscrito, isto é, as primeiras 24
seções de O anticristo. Isto aconteceu entre a desistência de Nietzsche
em relação ao plano da “Vontade de potência” e o surgimento de uma
nova idéia, a da “Transvaloração de todos os valores”, com quatro livros
específicos, isto é, entre 26 de agosto e 3 de setembro de 1888.
4. O Crepúsculo dos ídolos dá ao leitor a impressão de uma coleção
disparatada de pequenos ensaios que, em si, não são mais aforismos,
sobretudo nos seis capítulos: “O problema de Sócrates”, “A ‘razão’ na
filosofia”, “Como o ‘mundo verdadeiro’, enfim, tornou-se fábula”, “Mo82
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ral como contra-natureza”, “Os quatro grandes erros”, “Os melhoradores
da humanidade”. Pode-se reconhecer com exatidão, em cada um desses
capítulos, o seu lugar nos diferentes planos da “Vontade de potência”,
datados do começo/verão de 1888. Comum a esses diferentes planos é o
destaque ao niilismo (e ao pessimismo) como sintoma, como expressão
da décadence.
Assim, o “Problema de Sócrates” era o começo do capítulo “Filosofia
como décadence” (fragmento póstumo do início de 1888, 15 (5);
KSA, 13, p. 403), “Moral como contra-natureza” surge a partir de um
texto sob o título de “Moral como tipo da décadence” ( KSA, 14, p.
215), “Os quatro grandes erros” (que, não obstante, originariamente eram
três), em um plano da “Vontade de potência” fazia parte do primeiro
livro, cujos quatro livros tinham os seguintes títulos: I. Psicologia do
erro; II. Os falsos valores; III. O critério de verdade; IV. Luta entre falsos
e verdadeiros valores (fragmento póstumo 16 (86) do início ao verão
de 1888; KSA, 13, p. 515-6). “Os melhoradores da humanidade”
deveria formar o conteúdo do terceiro capítulo (Os bons e os
melhoradores) no segundo livro (Proveniência dos valores) do último
plano da “Vontade de potência” (26 de agosto de 1888) (fragmento póstumo
18 (17) de julho a agosto de 1888; KSA, 13, p. 537). “A razão na
filosofia” aparece sob a rubrica de “Filosofia como idiossincrasia” e,
em um outro plano como “O mundo verdadeiro e o aparente” ( fragmento
póstumo 18 (44) de setembro de 1888; KSA, 13, p. 543 e fragmento
póstumo 14 (156) do início de 1888; KSA 13, p. 340 respectivamente).
Finalmente, a parábola filosófica “Como o ‘mundo verdadeiro’,
enfim, tornou-se fábula” (fragmento póstumo 14 (156) do início de
1888; KSA, 13, p. 340) deveria tornar-se – de acordo com um plano do
início de 1888 – o primeiro capítulo da “Vontade de potência”; a preparação
desta seção do Crepúsculo dos ídolos foi, de fato, transcrita no
manuscrito “Primeiro capítulo”.
A restituição do texto do Crepúsculo dos ídolos ao seu lugar de
origem nos manuscritos não conduz ao que estaria contido por inteiro
nesses manuscritos, cuja origem se deve a uma determinada concepção
do conjunto da “Vontade de potência”, algumas vezes diferente. NenhuMontinari,
M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 83
ma dessas concepções de conjunto foi levada a cabo por Nietzsche. A
esse respeito, mais um exemplo. O curto capítulo “Como o ‘mundo verdadeiro’,
enfim, tornou-se fábula” pertence, como já foi mencionado, a
um plano do início de 1888, no qual o erro da oposição entre um mundo
verdadeiro e um mundo simplesmente aparente é apresentado como a
premissa de um querer equívoco em relação à vida por parte dos filósofos
(como tipos da décadence). Segue-se a ele um capítulo sobre a “Moral
como expressão da décadence”, criticada como altruísmo, compaixão,
cristianismo, espiritualização. O quarto capítulo examina a possibilidade
de uma posição contrária à décadence na filosofia e na moral. O
quinto deveria conter a crítica do presente como niilista, na qual um
elemento afirmativo do presente é a boa consciência da ciência. No sexto
capítulo, a Vontade potência deveria ser tratada como vida. Enfim, o
sétimo e último capítulo, sob o sugestivo título de “Nós, hiperbóreos”
diz o seguinte, de maneira impressionante, num plano que como todos
os outros nunca foi realizado: “Puros lugares absolutos, por exemplo
Felicidade! por exemplo História / ao final, monstruoso gozo e triunfo,
ter um puro e claro Sim e Não... Salvação da incerteza” (fragmento póstumo
14 (156) do início de 1888; KSA, 13, p. 341).
O material mais antigo – fechamos nossa análise – é rubricado;
novos textos aparecem até surgir um novo plano, inicialmente com pequenas
divergências e talvez um outro, que com os dois ainda tem alguma
semelhança. Assim sendo, no decorrer de outras meditações, são
pensados outros planos, as divisões em capítulos são de novo restituídas
ao invés daquelas dos livros, sua seqüência modificada, etc.
A partir desse fluxo de idéias, fixadas diferentemente, Nietzsche
fez sua primeira seleção; ele terminou uma cópia, na qual os capítulos
atuais do Crepúsculo dos ídolos foram transcritos juntamente com os
primeiros 24 capítulos de O anticristo. Mas então ele decidiu, de um
lado, comunicar o essencial de sua heterodoxia filosófica através das
“Ociosidades de um psicólogo” (= Crepúsculo dos ídolos) e, por outro
lado, atacar o projeto da “Transvaloração de todos os valores” em quatro
livros específicos, enquanto iniciava O anticristo. Das ruínas da “Vontade
de potência” que, entretanto, jamais fora um edifício, ele apanhou
84 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
o material utilizável para o Crepúsculo dos ídolos como o resumo de
sua filosofia e transformou as idéias sobre o cristianismo trabalhadas
anteriormente, na prosa forte e inventiva de O anticristo.
5. De volta ao texto do Crepúsculo dos ídolos, para os seus três
últimos capítulos. “O que falta aos alemães”, mesmo que numa forma
bastante divergente da versão definitiva era, originariamente, o “orgulhoso”
Prefácio de 3 de setembro de 1888, do qual nos lembrávamos no
início de nossa exposição. Neste sentido, Nietzsche escreveu para a
“Transvaloração de todos os valores” o curto Prefácio atual, que podemos
ler ainda no início de O anticristo. Soberanamente, Nietzsche dispôs
sobre seus textos até o último momento, mesmo quando falava deles
em suas cartas (neste caso, carta a Meta von Salis, de 7 de setembro
de 1888). Para a maioria das 51 partes que, de acordo com o modelo dos
livros de aforismos, formam o capítulo “Incursões de um extemporâneo”
pode-se, ao contrário, encontrar uma data mais antiga de seu aparecimento.
Uma parte deles, da 2ª à 4ª seção dos excertos existentes, ele os
constrói novamente pequenos; outra parte, organiza de acordo com uma
analogia de conteúdo, aforismos sobre escritores e artistas, sobre a modernidade,
sobre questões relativas ao trabalho, política, etc. A proveniência
desses excertos e aforismos é – mais uma vez – o material
desordenado e não utilizado da “Vontade de potência”. Os excertos são
de nº 8 a 11 (CI: Psicologia do artista; Fragmentos póstumos: Para a
psicologia da arte); 19-21 (CI: Belo e feio; Fragmentos póstumos:
Aesthetica. Ponto fundamental: o que é belo e feio?); 32-35 (CI: O
imoralista fala. O valor natural do egoísmo. Cristo e os anarquistas.
Crítica da moral da décadence; nos fragmentos póstumos, sem título,
mas como textos correlacionados); o longo aforismo 36, “Moral para
médicos”, pertence nos fragmentos póstumos a um extenso texto em
três partes: 1. A reabilitação do suicídio (=CI 36); 2. uma seção sobre a
proibição da propagação das doenças crônicas; 3. uma seção acerca da
reabilitação da prostituição. Os dois últimos textos não foram incluídos
por Nietzsche no Crepúsculo dos ídolos: talvez ele os tenha suprimido
visando ao segundo livro da “Transvaloração de todos os valores” (“O
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 85
imoralista”). A partir do ponto de vista desse livro surgiram também as
anotações espalhadas, a partir das quais Nietzsche compôs o longo
aforismo 37 das “Incursões de um extemporâneo” (Se nos tornamos
moralistas). As seções 38 (Meu conceito de liberdade) e 39 (Crítica da
modernidade) formavam novamente nos fragmentos póstumos uma parte
com o título: “A modernidade. Vademecum de um futuro vindouro”.
Finalmente, a seção 45 das “Incursões” (O criminoso e o que lhe é aparentado),
constituía uma continuação do texto dos póstumos mencionado
acima acerca do suicídio, propagação das doenças e prostituição.
Originariamente, o Crepúsculo dos ídolos deveria ser concluído
após os dois textos sobre Goethe (49 e 50) das “Incursões” com o seguinte
texto (51):
“Perguntam-me, freqüentemente, porque escrevo em alemão, quando
em nenhum outro lugar do mundo sou tão mal lido como na minha
pátria. Quem sabe afinal se eu também desejo ser lido hoje? – criar
coisas em que inutilmente o tempo experimenta seus dentes; buscar
uma pequena imortalidade segundo a forma, segundo a substância –
jamais fui suficientemente modesto para exigir menos de mim. O
aforismo, a sentença, nas quais, sendo o primeiro, sou o mestre entre os
alemães, são as formas da ‘eternidade’; minha ambição é dizer em dez
frases aquilo que qualquer outro diz em um livro, – aquilo que qualquer
outro não diz em um livro. Ofereci à humanidade o livro mais profundo
que ela possui, o meu Zaratustra: breve, oferecer-lhes-ei o livro mais
independente”.
Com este anúncio da “Transvaloração de todos os valores”,
Nietzsche queria terminar o livro. O capítulo “O que devo aos antigos”
foi incluído depois e, mais precisamente, durante a correção; Nietzsche
o retirou de um texto volumoso, que ele entrevira como a primeira versão
do Ecce homo.
Resumamos os resultados dessa abordagem crítica do texto do
Crepúsculo dos ídolos: a redução do Crepúsculo dos ídolos aos fragmentos
póstumos é uma operação sem sentido, caso se prometa através
disso a reconstrução de uma obra – a “Vontade de potência”. O Crepús86
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
culo dos ídolos fornece, ao contrário, a justificativa para o fato de que
Nietzsche desistira do projeto da “Vontade de potência”, que o ocupava
desde setembro de 1885. Os pensamentos do Crepúsculo dos ídolos
ganham seu pano-de-fundo genético, se forem lidos mais uma vez nas
suas conexões originárias. Os fragmentos póstumos tornam-se aqui um
complemento, na medida em que eles foram restringidos na obra
publicada ou até mesmo suprimidos.
6. Chama a atenção de todo leitor do Crepúsculo dos ídolos, que
Nietzsche utiliza uma nova terminologia: Sócrates como raquítico, bastardo
e de desenvolvimento decadente, o criminoso típico como monstro,
despotenciação, degenerescência e degenerado, fisiologia, psicologicamente
degenerado, estado de necessidade fisiológica, sentimentos
fisiológicos fundamentais, “nós fisiólogos”, aprisionamento pela doença,
decadência e esgotamento – e, por toda parte, décadence: esta terminologia
sinaliza em Nietzsche um desvio em direção à fisiologia contemporânea.
Algumas semanas depois, seu espírito é vencido sob estes
signos: em uma de suas últimas declarações, quer “homenagear a fisiologia”.
Um esquisito ar de hospital sopra contra nós, de muitas páginas
do Crepúsculo dos ídolos. A mesma coisa é válida para o Caso Wagner,
panfleto redigido um pouco antes. Ou seja: quem não se defende de
Wagner, é já ele mesmo signo de décadence, da décadence fisiológica e
“O instinto é enfraquecido. Veste-se aquilo que deveria amedrontar.
Coloca-se nos lábios o que mais rapidamente impulsiona para o abismo
– Um exemplo? Deve apenas observar o regime que se prescreve para os
anêmicos, os doentes de gota ou para os diabéticos” (WA/CW § 5). A
invasão do medi-cínico (do processo de medicalização das condutas)(2)
é um distintivo do amortecido século XIX. Criminosos e prostitutas,
alcoólatras e neuróticos, degenerados e loucos: Dégénerescence et
criminalité é um tema popular dos fisiólogos, é o título de um livro de
Charlés Féré que Nietzsche, no começo de 1888, pouco depois de sua
publicação, estudou e anotou e a quem ele deve seu conhecimento acerca
do regime das doenças no Caso Wagner e muitas outras coisas no
Crepúsculo dos ídolos. Charles Féré (1852-1907) foi um médico dos
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nervos e estagiário no serviço de Charcot, na famosa Salpêtrière de Paris.
Sua sóbria obra acerca da degenerescência e da criminalidade fornece
a Nietzsche importantes referências sobre o falso modo de vida e
alimentação dos doentes, dos degenerados no sentido amplo que, exatamente
a partir de sua degenerescência, escolhem arruinar-se. Os póstumos
mostram, da mesma maneira que o Caso Wagner e o Crepúsculo
dos ídolos, profundos traços da ocupação de Nietzsche com este
fisiólogo. O conhecido aforismo 52 do livro conhecido como “Vontade
de potência” (fragmento póstumo 15 (41) do início de 1888; KSA, 13,
p. 433), um texto de caráter fisiológico, singularmente terrível acerca
da ausência de compaixão na natureza para com os degenerados, não é
um texto de Nietzsche, mas uma tradução dele de um trecho do livro de
Féré: o que, sem dúvida, os compiladores da “Vontade de potência” não
revelaram aos seus leitores! Ao mesmo tempo em que Nietzsche tentou
acompanhar a mais recente situação da fisiologia, ele produziu para si
mesmo e para seus contemporâneos conceitos e metáforas pregnantes.
Isto é válido sobretudo para a complexa elaboração de uma fisiologia
da arte, motivada pelas pré-condições fisiológicas do êxtase. Deste mundo
de morbidezza, de aprisionamento pela doença, chegam outras vozes
parisienses que Nietzsche ouvia com uma singular atenção, tal como
pode-se concluir a partir dos póstumos e das citações referidas na obra:
Paul Bourget e Ernst Renan, os irmãos Goncourt, Baudelaire e muitos
outros escritores e cientistas menos importantes. A solidão de Nietzsche
era algo bem diferente de um bloqueio contra contemporâneos e livros
de contemporâneos. Recuperar este meio-ambiente vivo e histórico é
um pressuposto necessário para lê-lo corretamente.
7. Um método de conversão (sobre o qual Heidegger já chamara a
atenção); o destaque à décadence na filosofia, na religião, na moral, na
política, na arte; a tentativa de mostrar a limitação fisiológica da
décadence; o êxtase como o momento mais elevado da criação artística
(fisiologia da arte): enfim, a recordação da “visão dionisíaca do mundo”.
Com isso, queremos circunscrever o conteúdo do Crepúsculo dos
ídolos.
88 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
A conversão acontece, de início, no plano da teoria do conhecimento:
não é o mundo verdadeiro que tem realidade, mas a realidade é,
exatamente, aquele mundo descrito pela filosofia como aparente; dividir
o mundo em um “verdadeiro” e outro “aparente” é apenas uma sugestão
da décadence. O mesmo vale para a moral: as paixões, a sensualidade,
não devem apenas ser exterminadas, mas espiritualizadas. Mais
ainda: não há nenhum sentido em dizer que o homem deve ser assim e
assado. Deve-se afirmar, ao contrário, o império encantado dos tipos, de
um profuso jogo de formas e de mudanças na realidade. A moral é uma
degenerescência idiossincrática. Uma pessoa feliz e educada deve fazer
certas ações e, instintivamente, se envergonha diante de outras ações.
Sua virtude é conseqüência de sua felicidade (e não a felicidade conseqüência
de sua virtude). Neste ponto, então, a moral a partir de Sócrates,
através da igualdade entre razão, virtude e felicidade, que conduziu a
guerra contra os instintos, tornou-se uma expressão da décadence; o
moralismo da filosofia grega a partir de Platão era patologicamente limitado;
os instintos devem perder – esta é a fórmula da décadence.
Sócrates sabia que era doente, Sócrates quis morrer.
Esta e outras confrontações com a décadence devem ser compreendidas
de acordo com o princípio estabelecido por Nietzsche nos póstumos:
o pessimismo não é nenhum problema, mas apenas sintoma, o
nome correto para isso é niilismo; entretanto, “o niilismo não é nenhuma
causa, mas apenas a lógica da décadence” (fragmento póstumo 14
(86) do início de 1888; KSA, 13, p. 265). Valores niilistas, valores decadentes
conduzem à dominação sob os nomes mais sagrados. Onde falta
vontade de potência, há decadência. Todos os valores nos quais a humanidade
resume seus mais elevados desejos são valores da décadence.
Assim o diz Nietzsche em O anticristo. Mas, ao lado desse processo de
pensamento que se orienta pelo conceito de vontade de potência, há um
outro no Crepúsculo dos ídolos, do qual Nietzsche queria tratar no quarto
livro (“Dioniso filósofo”) da “Transvaloração de todos os valores”. Ele
não chegou até aí e, neste sentido, somos instruídos pela execução do
Crepúsculo dos ídolos. Com as palavras de Nietzsche: o valor da vida
não pode ser julgado, a vida não permite o juízo de um ser em particuMontinari,
M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 89
lar, porque este faz parte desta própria vida. “O indivíduo é parte do
fatum, à frente e atrás, é uma lei a mais, uma necessidade a mais para
tudo o que chega e virá. Dizer-lhe ‘muda tua natureza’ é desejar uma
transformação do todo, até mesmo uma transformação do passado...”
(GD/CI §§ 5 e 6). “Somos necessários, somos um fragmento do destino,
formamos parte do todo, estamos no todo: não há nada que possa dirigir
o nosso ser, medí-lo, compará-lo, julgá-lo... Não há nada fora do todo!
– Que ninguém mais possa ser responsabilizado, pois o ser não deve se
referir a uma causa primeira, pois o mundo não é nem uma unidade
como sensação, nem como ‘espírito’, eis a primeira grande libertação,
– com isso restaura-se a inocência do vir-a-ser... O conceito ‘Deus’ era
até aqui a maior objeção contra a existência... Nós negamos Deus, nós
negamos a responsabilidade em Deus: com isso, antes de mais nada,
redimimos o mundo-” (GD/CI § 8). “O poder que não tem mais necessidade
de nenhuma justificativa, que desdenha o agradar, que dificilmente
contesta, que não vê testemunhas em volta de si, que vive sem a consciência
de que há oposições contra ele; que nele descansa, fatalísticamente,
uma lei entre as leis (...)” (GD/CI § 11). Um espírito tornado
livre como Goethe “aparece no centro do universo com um fatalismo
feliz e confiante, na crença de que apenas o indivíduo é condenável, que
na totalidade tudo se resolve e se afirma – ele não renega mais... Mas,
uma tal crença é a maior de todas as crenças”. Nietzsche “a batizou com
o nome de Dioniso” (GD/CI § 49 e 50). “A afirmação da vida até em
seus problemas mais estranhos e duros; a vontade de viver, regozijandose
no sacrifício de seus tipos mais elevados da própria inesgotabilidade
– isso chamei de dionisíaco”; o poeta trágico quer ser ele mesmo “o
eterno prazer do vir-a-ser”, “todo prazer que em si encerra ainda o prazer
na destruição (...)”. “O nascimento da tragédia – assim conclui
Nietzsche o Crepúsculo dos ídolos – foi a minha primeira transvaloração
de todos os valores: com isso, retorno novamente ao solo do qual cresceu
meu querer, meu poder – eu, o último discípulo do filósofo Dioniso,
– eu, o mestre do eterno retorno...” (GD/CI § 5).
Esta posição, no fim, do pensamento do eterno retorno do mesmo,
não me parece ocasional. Este é um pensamento que está na conclusão
90 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
de toda uma história de vida e paixão. Através de sua afirmação, a vida
torna-se justificada, o mundo redimido, quando toda a dura realidade da
vida for percorrida por uma vontade de potência múltipla. Este pensamento
não se deixa compreender por fórmulas, ou melhor, todas as suas
formulações são provisórias e superáveis, na medida em que abarca num
todo a vida, o mundo e o tempo, mas não de forma transcendental, porque
ele já expressa a totalidade. Através dele acontece a confirmação da
imanência após a morte de Deus. Ele é, de fato, a maior justificativa da
vida e, nesta medida, está em oposição ao que calunia a vida; mas porque
isto é parte da vida, é também justificado e não julgável. Neste
sentido, o pensamento do eterno retorno não oferece à vida aquilo que,
como tal, o perspectivismo da vontade de potência precisa. Não se entrega
o conhecimento do eterno retorno a preço de pechincha. Por conseguinte,
existe uma tensão no pensamento do eterno retorno, considerado
por um lado como fundamento especulativo último, como inocência
do vir-a-ser, como redenção do mundo, como a mais elevada forma
de afirmação da vida e (por outro lado) como confrontação com situações
particulares, seja a filosofia até então, ou a modernidade, o niilismo
e a décadence, a moral ou a religião, uma tensão que não é superada,
que por princípio não deve ser superada. Uma sistematização geral da
vontade de potência como princípio eliminaria, por um lado, a resolução
da luta necessária ao perspectivismo e, por outro, se igualaria à construção
de uma metafísica da vontade de potência (análoga à metafísica
schopenhaueriana da vontade de vida). Mas, a presença do pensamento
do eterno retorno impede toda sistematização. Agora, entendemos o sentido
profundo da máxima de Crepúsculo dos ídolos: “A vontade de sistema
constitui uma falta de lealdade” (GD/CI § 26).
O sentido filosófico do Crepúsculo dos ídolos não é uma sistemática
da Vontade de potência, mas sua superação no pensamento do eterno
retorno do mesmo.
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 91
Abstract: Starting from the idea that the philosophical interpretation of Nietzsche
has to have as its basis the philological-historical work, this article aims to present
The twilight of idols. It rebuilds the genesis of the book in the context of the “Will
to power”’s project.
Key-words: philology – history – will to power – eternal recurrence
Notas
(1) Peter Gast destaca que as palavras “Müssigang” (“ociosidade”) e “Müdigkeit”
(cansaço) iniciam com a mesma sílaba “Mü”. Mesmo que as palavras em português
não tenham esta mesma afinidade há, contudo, uma afinidade de sentido
quando se diz, por exemplo, “estou cansado de não fazer nada” ou “a ociosidade
cansa”, da mesma maneira que também se “acredita” em português que “a ociosidade
é a mãe de todos os vícios” (N.T.).
(2) Ao separar pelo hífen a palavra “Medizinisch” (que indicaria para o processo de
“medicalização” das condutas no século XIX), Montinari, por aliteração, faz soar
o “zynisch” (cínico) e, com isso, acentua o aspecto moralizador, do ponto de
vista médico-psiquiátrico, do estudo das degenerescências. Basta lembrar os
inúmeros estudos a respeito – de Foucault aos historiadores da psicanálise (N.T.).
Ler Nietzsche:
*
Mazzino Montinari
Resumo: Partindo do pressuposto de que toda interpretação filosófica de
Nietzsche deve ter por base um trabalho filológico-histórico, o presente artigo
visa a fazer uma apresentação do Crepúsculo dos ídolos. Nesta perspectiva,
reconstrói-se a gênese do livro do interior do projeto da Vontade de potência
para, enfim, concluir que, do ponto de vista filosófico, Crepúsculo dos ídolos
mostra que é através do pensamento do eterno retorno que a superação da
metafísica pode se realizar.
Palavras-chave: filologia – história – vontade de potência – eterno retorno
1. Em 3 de setembro de 1888, em um esplêndido, o mais belo dos
dias que Nietzsche vira em Sils-Maria, na Engadina – “uma força luminosa
de todas as cores, um azul no lago e no céu, uma claridade do ar,
totalmente inesperada” – ele escreveu o Prefácio da “Transvaloração de
todos os valores”. Nas semanas anteriores, sua vida se desorganizara;
impulsionado pelo espírito, acordava muitas vezes às duas da madrugada
e anotava o que antes lhe passara pela cabeça: nesses momentos,
ouvia como seu senhorio abria a porta com cuidado e se esgueirava para
caçar cabras alpinas (a Meta von Salis, 07.09.1888). Ele talvez também
caçasse cabras alpinas... Estava no início de um novo trabalho e acreditava
ter encontrado a forma de comunicá-lo, para publicar a obra independente
“Transvaloração de todos os valores”, cujo primeiro livro cha-
* Artigo originalmente publicado em Nietzsche-Studien, 13, 1984.
Tradução de Ernani Chaves.
78 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
mava-se O anticristo. Mas, a partir do material reunido até então surgiu
também um outro escrito, inicialmente intitulado “Ociosidade de um
psicólogo” e, depois, Crepúsculo dos ídolos ou como se filosofa com o
martelo. Este era o resumo da sua mais essencial heterodoxia filosófica,
a comunicação do resultado mais maduro do seu filosofar no último
ano. Ambos, o projeto da “Transvaloração de todos os valores” em quatro
livros e o Crepúsculo dos ídolos, surgiram do material da “Vontade
de potência. Tentativa de uma Transvaloração de todos os valores”, obra
entrevista até o fim de agosto de 1888.
2. Antes de mais nada, e para evitar mal-entendidos acerca das
minhas considerações sobre Crepúsculo dos ídolos, gostaria de dizer
que o trabalho editorial, filológico, é um trabalho preliminar, que ele
sozinho não é suficiente para a compreensão de Nietzsche, mas que pode
deixar o caminho livre para ela. A filologia, ou seja, a história, pode
franquear em três aspectos o caminho para a compreensão do Crepúsculo
dos ídolos:
a) na medida em que o coloca como a formulação filosófica e artística
de suas idéias entre o começo e o verão de 1888;
b) na medida em que estabelece sua íntima conexão com os fragmentos
póstumos e, com isso, com a totalidade do desenvolvimento das idéias
de Nietzsche;
c) na medida em que ela, através da exploração das fontes, coloca o
Crepúsculo dos ídolos em uma frutífera conexão com o mundo anterior,
contemporâneo e com a posteridade de Nietzsche.
Os fragmentos póstumos, no sentido amplo desta palavra,
formam aqui o pano-de-fundo onde se desenha este momento separado
de nós, mas também acoplado a nós. A história do surgimento do Crepúsculo
dos ídolos é, ao mesmo tempo, a história das intenções literárias
de Nietzsche em relação a todo o material que ele reunira até então,
tendo em vista a “Vontade de potência”; isto significa que se decifra o
mistério do Crepúsculo dos ídolos colocando-o em uma conexão primeira,
uma conexão de todo modo sui generis, na medida, enfim, em
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 79
que devem ser encontradas as referências às fontes de Nietzsche, principalmente
nos fragmentos póstumos. Gostaria de manter a diferença
dos três pontos de vista, tal como os enumerei e fundamentei acima e
isso pelas razões que se seguem: o primeiro ponto diz respeito ao Crepúsculo
dos ídolos, na medida em que ele foi publicado, transmitido em
uma forma muito específica; o segundo, na medida em que até a sua
publicação ele era, em todo caso, parte de fragmentos igualmente bem
específicos; o terceiro, na medida em que descobre as fontes, as leituras
e os interlocutores de Nietzsche.
3. Acerca da função do Crepúsculo dos ídolos entre o Caso Wagner,
publicado um pouco antes e os seus últimos escritos – O anticristo,
Ecce homo – Nietzsche escreveu no “Prefácio”: “Este pequeno escrito é
uma grande declaração de guerra”. Nietzsche se compreende em guerra
pelo fortalecimento da “Transvaloração de todos os valores”, pelo questionamento
dos deuses. Certamente não é examinado nenhum deus
temporal, mas sim os deuses eternos, que aqui são espicaçados com o
martelo, como com um tridente. O martelo, com o qual Nietzsche filosofa
em seu livro, é mais o martelo do minerólogo do que a rude ferramenta
da brutalidade; sim, um tridente, através do qual como resposta “ouvese
esse famoso som oco”, “que fala de entranhas insufladas”. O Crepúsculo
dos ídolos contém 10 seções de extensão desigual. As “Sentenças e
setas”, uma coletânea de 44 sentenças, correspondem a uma antiga
tradição dos escritos de Nietzsche e também a um exercício literário
neste gênero, com o qual nos deparamos, freqüentemente, em seus póstumos
a partir de 1882. Elas são uma espécie de pré-paração (Vor-Spiel)
séria para as exposições (Abhandlungen) filosóficas que se seguem.
A primeira máxima da coletânea – “A ociosidade é o início de
toda psicologia. Como? Seria a psicologia um – vício?”– existia há sete
anos nos manuscritos de Nietzsche. Ela era – além disso – pensada,
originariamente, como uma retomada do primeiro título de Crespúsculo
dos ídolos (“Ociosidades de um psicólogo”). Um caderno de anotações
de Gênova, da época imediatamente anterior à redação da Gaia ciência,
contém, de fato, o seguinte fragmento: “A ociosidade de Zaratustra é o
80 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
início de todos os vícios” (fragmento póstumo 12 (112) do outono de
1881; KSA, 9, p. 596) e, ao final, ainda como título: “A ociosidade de
Zaratustra. de F(riedrich) N(ietzsche) ” (fragmento póstumo 12 (225)
do outono de 1881; KSA, 9, p. 616). Sete anos depois, Nietzsche não
apenas retorna à sentença, mas também ao título. Neste meio-tempo,
ele transcreveu a sentença em um caderno do início de 1888, em uma
forma ligeiramente modificada: “A ociosidade é o início de toda filosofia.
– Em conseqüência – é a filosofia um vício?...” (fragmento póstumo
11 (107) de novembro de 1887 a março de 1888; KSA, 13, p. 51). No
manuscrito, filosofia; no livro publicado, psicologia: isto nos permite
talvez compreender melhor o que Nietzsche pensava sob a palavra psicologia
(e filosofia). Mas também (compreender melhor a conexão) Zaratustra
– Filosofia – Psicologia. O otium filosófico como início de todos
os vícios.
A ociosidade de Zaratustra tornou-se na primeira versão do título
do Crepúsculo dos ídolos, “Ociosidade de um Psicólogo” (fragmento
póstumo 22 (6) de setembro a outubro de 1888; KSA, 13, p. 586). Quando
recebeu as primeiras folhas de correção da gráfica de Leipzig, Peter
Gast (aliás Heinrich Köselitz), auxiliar e discípulo de Nietzsche, escreveu
em 20 de setembro de 1888: “O título ‘Ociosidade de um psi(cólogo)’”
soa-me demasiado modesto, quando me lembro como ele poderia agir
sobre as pessoas comuns: o senhor dirigiu sua artilharia para as montanhas
mais elevadas, o senhor tem canhões como nunca houve antes e
precisa apenas atirar às cegas, para aterrorizar os arredores. Um passo
de gigante sob o qual as montanhas estremecem nas origens, não é mais
nenhuma ociosidade. Além disso, na nossa época, a ociosidade é costume
após o trabalho e o Mü (de “Müssigang”) aparece também em Müdigkeit
(cansaço).(1) Ah, eu suplico como só um homem incapaz deve suplicar:
um título espetacular, brilhante”. A retórica de artilheiro deste Peter Gast
encontrou ouvidos exagerados e até mesmo sua manifestação em algumas
passagens do Ecce homo. Nietzsche respondeu sete dias depois (em 27.9):
“No que diz respeito ao título, no seu reparo tão humano, minhas próprias
reflexões lhe anteciparam: finalmente, a partir das palavras do Prefácio,
encontrei a fórmula que também talvez satisfaça suas necessidades. O
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 81
que o senhor escreveu acerca da ‘grande artilharia’, devo simplesmente
adotar em meio à escrita final do primeiro livro da ‘Transvaloração’.
Caminha-se para uma horrível detonação”. O novo título – “Crepúsculo
dos Ídolos” – era também uma maldade contra Wagner, como Nietzsche
observara na mesma carta: Wagner compôs um “Crepúsculo dos deuses”.
As detonações da Transvaloração encontrariam então sua conclusão
desmesurada em toda “Lei contra o cristianismo”, que Nietzsche anuncia
no “primeiro dia do ano um (em 30 de setembro de 1888 do falso calendário)”,
no final de O anticristo. O Prefácio do Crepúsculo dos ídolos
também era datado de 30 de setembro de 1888, “no dia em que foi
concluído o primeiro livro da Transvaloração de todos os valores (isto
é, O anticristo)”.
A impressão do Crepúsculo dos ídolos terminou no início de novembro.
Neste meio-tempo – após a conclusão do manuscrito O
anticristo – surgiu um outro escrito: Ecce homo. Neste, Nietzsche trabalhou
até o fim de dezembro e o concluiu ao mesmo tempo que Nietzsche
contra Wagner e os Ditirambos de Dioniso. Ecce homo fora pensado,
inicialmente, como um apêndice do Crepúsculo dos ídolos; ele ganhou
sua própria autonomia, mas manteve do Crepúsculo dos ídolos o último
capítulo: “O que devo aos antigos”.
O Crepúsculo dos ídolos representa uma espécie de obra-gêmea
de O anticristo, sobretudo da perspectiva da história de seu surgimento.
Do mesmo modo que O anticristo, ele tem suas origens em um e mesmo
material; eles até mesmo coexistem durante um longo tempo, em
uma boa terça parte de um único manuscrito, isto é, as primeiras 24
seções de O anticristo. Isto aconteceu entre a desistência de Nietzsche
em relação ao plano da “Vontade de potência” e o surgimento de uma
nova idéia, a da “Transvaloração de todos os valores”, com quatro livros
específicos, isto é, entre 26 de agosto e 3 de setembro de 1888.
4. O Crepúsculo dos ídolos dá ao leitor a impressão de uma coleção
disparatada de pequenos ensaios que, em si, não são mais aforismos,
sobretudo nos seis capítulos: “O problema de Sócrates”, “A ‘razão’ na
filosofia”, “Como o ‘mundo verdadeiro’, enfim, tornou-se fábula”, “Mo82
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
ral como contra-natureza”, “Os quatro grandes erros”, “Os melhoradores
da humanidade”. Pode-se reconhecer com exatidão, em cada um desses
capítulos, o seu lugar nos diferentes planos da “Vontade de potência”,
datados do começo/verão de 1888. Comum a esses diferentes planos é o
destaque ao niilismo (e ao pessimismo) como sintoma, como expressão
da décadence.
Assim, o “Problema de Sócrates” era o começo do capítulo “Filosofia
como décadence” (fragmento póstumo do início de 1888, 15 (5);
KSA, 13, p. 403), “Moral como contra-natureza” surge a partir de um
texto sob o título de “Moral como tipo da décadence” ( KSA, 14, p.
215), “Os quatro grandes erros” (que, não obstante, originariamente eram
três), em um plano da “Vontade de potência” fazia parte do primeiro
livro, cujos quatro livros tinham os seguintes títulos: I. Psicologia do
erro; II. Os falsos valores; III. O critério de verdade; IV. Luta entre falsos
e verdadeiros valores (fragmento póstumo 16 (86) do início ao verão
de 1888; KSA, 13, p. 515-6). “Os melhoradores da humanidade”
deveria formar o conteúdo do terceiro capítulo (Os bons e os
melhoradores) no segundo livro (Proveniência dos valores) do último
plano da “Vontade de potência” (26 de agosto de 1888) (fragmento póstumo
18 (17) de julho a agosto de 1888; KSA, 13, p. 537). “A razão na
filosofia” aparece sob a rubrica de “Filosofia como idiossincrasia” e,
em um outro plano como “O mundo verdadeiro e o aparente” ( fragmento
póstumo 18 (44) de setembro de 1888; KSA, 13, p. 543 e fragmento
póstumo 14 (156) do início de 1888; KSA 13, p. 340 respectivamente).
Finalmente, a parábola filosófica “Como o ‘mundo verdadeiro’,
enfim, tornou-se fábula” (fragmento póstumo 14 (156) do início de
1888; KSA, 13, p. 340) deveria tornar-se – de acordo com um plano do
início de 1888 – o primeiro capítulo da “Vontade de potência”; a preparação
desta seção do Crepúsculo dos ídolos foi, de fato, transcrita no
manuscrito “Primeiro capítulo”.
A restituição do texto do Crepúsculo dos ídolos ao seu lugar de
origem nos manuscritos não conduz ao que estaria contido por inteiro
nesses manuscritos, cuja origem se deve a uma determinada concepção
do conjunto da “Vontade de potência”, algumas vezes diferente. NenhuMontinari,
M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 83
ma dessas concepções de conjunto foi levada a cabo por Nietzsche. A
esse respeito, mais um exemplo. O curto capítulo “Como o ‘mundo verdadeiro’,
enfim, tornou-se fábula” pertence, como já foi mencionado, a
um plano do início de 1888, no qual o erro da oposição entre um mundo
verdadeiro e um mundo simplesmente aparente é apresentado como a
premissa de um querer equívoco em relação à vida por parte dos filósofos
(como tipos da décadence). Segue-se a ele um capítulo sobre a “Moral
como expressão da décadence”, criticada como altruísmo, compaixão,
cristianismo, espiritualização. O quarto capítulo examina a possibilidade
de uma posição contrária à décadence na filosofia e na moral. O
quinto deveria conter a crítica do presente como niilista, na qual um
elemento afirmativo do presente é a boa consciência da ciência. No sexto
capítulo, a Vontade potência deveria ser tratada como vida. Enfim, o
sétimo e último capítulo, sob o sugestivo título de “Nós, hiperbóreos”
diz o seguinte, de maneira impressionante, num plano que como todos
os outros nunca foi realizado: “Puros lugares absolutos, por exemplo
Felicidade! por exemplo História / ao final, monstruoso gozo e triunfo,
ter um puro e claro Sim e Não... Salvação da incerteza” (fragmento póstumo
14 (156) do início de 1888; KSA, 13, p. 341).
O material mais antigo – fechamos nossa análise – é rubricado;
novos textos aparecem até surgir um novo plano, inicialmente com pequenas
divergências e talvez um outro, que com os dois ainda tem alguma
semelhança. Assim sendo, no decorrer de outras meditações, são
pensados outros planos, as divisões em capítulos são de novo restituídas
ao invés daquelas dos livros, sua seqüência modificada, etc.
A partir desse fluxo de idéias, fixadas diferentemente, Nietzsche
fez sua primeira seleção; ele terminou uma cópia, na qual os capítulos
atuais do Crepúsculo dos ídolos foram transcritos juntamente com os
primeiros 24 capítulos de O anticristo. Mas então ele decidiu, de um
lado, comunicar o essencial de sua heterodoxia filosófica através das
“Ociosidades de um psicólogo” (= Crepúsculo dos ídolos) e, por outro
lado, atacar o projeto da “Transvaloração de todos os valores” em quatro
livros específicos, enquanto iniciava O anticristo. Das ruínas da “Vontade
de potência” que, entretanto, jamais fora um edifício, ele apanhou
84 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
o material utilizável para o Crepúsculo dos ídolos como o resumo de
sua filosofia e transformou as idéias sobre o cristianismo trabalhadas
anteriormente, na prosa forte e inventiva de O anticristo.
5. De volta ao texto do Crepúsculo dos ídolos, para os seus três
últimos capítulos. “O que falta aos alemães”, mesmo que numa forma
bastante divergente da versão definitiva era, originariamente, o “orgulhoso”
Prefácio de 3 de setembro de 1888, do qual nos lembrávamos no
início de nossa exposição. Neste sentido, Nietzsche escreveu para a
“Transvaloração de todos os valores” o curto Prefácio atual, que podemos
ler ainda no início de O anticristo. Soberanamente, Nietzsche dispôs
sobre seus textos até o último momento, mesmo quando falava deles
em suas cartas (neste caso, carta a Meta von Salis, de 7 de setembro
de 1888). Para a maioria das 51 partes que, de acordo com o modelo dos
livros de aforismos, formam o capítulo “Incursões de um extemporâneo”
pode-se, ao contrário, encontrar uma data mais antiga de seu aparecimento.
Uma parte deles, da 2ª à 4ª seção dos excertos existentes, ele os
constrói novamente pequenos; outra parte, organiza de acordo com uma
analogia de conteúdo, aforismos sobre escritores e artistas, sobre a modernidade,
sobre questões relativas ao trabalho, política, etc. A proveniência
desses excertos e aforismos é – mais uma vez – o material
desordenado e não utilizado da “Vontade de potência”. Os excertos são
de nº 8 a 11 (CI: Psicologia do artista; Fragmentos póstumos: Para a
psicologia da arte); 19-21 (CI: Belo e feio; Fragmentos póstumos:
Aesthetica. Ponto fundamental: o que é belo e feio?); 32-35 (CI: O
imoralista fala. O valor natural do egoísmo. Cristo e os anarquistas.
Crítica da moral da décadence; nos fragmentos póstumos, sem título,
mas como textos correlacionados); o longo aforismo 36, “Moral para
médicos”, pertence nos fragmentos póstumos a um extenso texto em
três partes: 1. A reabilitação do suicídio (=CI 36); 2. uma seção sobre a
proibição da propagação das doenças crônicas; 3. uma seção acerca da
reabilitação da prostituição. Os dois últimos textos não foram incluídos
por Nietzsche no Crepúsculo dos ídolos: talvez ele os tenha suprimido
visando ao segundo livro da “Transvaloração de todos os valores” (“O
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 85
imoralista”). A partir do ponto de vista desse livro surgiram também as
anotações espalhadas, a partir das quais Nietzsche compôs o longo
aforismo 37 das “Incursões de um extemporâneo” (Se nos tornamos
moralistas). As seções 38 (Meu conceito de liberdade) e 39 (Crítica da
modernidade) formavam novamente nos fragmentos póstumos uma parte
com o título: “A modernidade. Vademecum de um futuro vindouro”.
Finalmente, a seção 45 das “Incursões” (O criminoso e o que lhe é aparentado),
constituía uma continuação do texto dos póstumos mencionado
acima acerca do suicídio, propagação das doenças e prostituição.
Originariamente, o Crepúsculo dos ídolos deveria ser concluído
após os dois textos sobre Goethe (49 e 50) das “Incursões” com o seguinte
texto (51):
“Perguntam-me, freqüentemente, porque escrevo em alemão, quando
em nenhum outro lugar do mundo sou tão mal lido como na minha
pátria. Quem sabe afinal se eu também desejo ser lido hoje? – criar
coisas em que inutilmente o tempo experimenta seus dentes; buscar
uma pequena imortalidade segundo a forma, segundo a substância –
jamais fui suficientemente modesto para exigir menos de mim. O
aforismo, a sentença, nas quais, sendo o primeiro, sou o mestre entre os
alemães, são as formas da ‘eternidade’; minha ambição é dizer em dez
frases aquilo que qualquer outro diz em um livro, – aquilo que qualquer
outro não diz em um livro. Ofereci à humanidade o livro mais profundo
que ela possui, o meu Zaratustra: breve, oferecer-lhes-ei o livro mais
independente”.
Com este anúncio da “Transvaloração de todos os valores”,
Nietzsche queria terminar o livro. O capítulo “O que devo aos antigos”
foi incluído depois e, mais precisamente, durante a correção; Nietzsche
o retirou de um texto volumoso, que ele entrevira como a primeira versão
do Ecce homo.
Resumamos os resultados dessa abordagem crítica do texto do
Crepúsculo dos ídolos: a redução do Crepúsculo dos ídolos aos fragmentos
póstumos é uma operação sem sentido, caso se prometa através
disso a reconstrução de uma obra – a “Vontade de potência”. O Crepús86
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
culo dos ídolos fornece, ao contrário, a justificativa para o fato de que
Nietzsche desistira do projeto da “Vontade de potência”, que o ocupava
desde setembro de 1885. Os pensamentos do Crepúsculo dos ídolos
ganham seu pano-de-fundo genético, se forem lidos mais uma vez nas
suas conexões originárias. Os fragmentos póstumos tornam-se aqui um
complemento, na medida em que eles foram restringidos na obra
publicada ou até mesmo suprimidos.
6. Chama a atenção de todo leitor do Crepúsculo dos ídolos, que
Nietzsche utiliza uma nova terminologia: Sócrates como raquítico, bastardo
e de desenvolvimento decadente, o criminoso típico como monstro,
despotenciação, degenerescência e degenerado, fisiologia, psicologicamente
degenerado, estado de necessidade fisiológica, sentimentos
fisiológicos fundamentais, “nós fisiólogos”, aprisionamento pela doença,
decadência e esgotamento – e, por toda parte, décadence: esta terminologia
sinaliza em Nietzsche um desvio em direção à fisiologia contemporânea.
Algumas semanas depois, seu espírito é vencido sob estes
signos: em uma de suas últimas declarações, quer “homenagear a fisiologia”.
Um esquisito ar de hospital sopra contra nós, de muitas páginas
do Crepúsculo dos ídolos. A mesma coisa é válida para o Caso Wagner,
panfleto redigido um pouco antes. Ou seja: quem não se defende de
Wagner, é já ele mesmo signo de décadence, da décadence fisiológica e
“O instinto é enfraquecido. Veste-se aquilo que deveria amedrontar.
Coloca-se nos lábios o que mais rapidamente impulsiona para o abismo
– Um exemplo? Deve apenas observar o regime que se prescreve para os
anêmicos, os doentes de gota ou para os diabéticos” (WA/CW § 5). A
invasão do medi-cínico (do processo de medicalização das condutas)(2)
é um distintivo do amortecido século XIX. Criminosos e prostitutas,
alcoólatras e neuróticos, degenerados e loucos: Dégénerescence et
criminalité é um tema popular dos fisiólogos, é o título de um livro de
Charlés Féré que Nietzsche, no começo de 1888, pouco depois de sua
publicação, estudou e anotou e a quem ele deve seu conhecimento acerca
do regime das doenças no Caso Wagner e muitas outras coisas no
Crepúsculo dos ídolos. Charles Féré (1852-1907) foi um médico dos
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 87
nervos e estagiário no serviço de Charcot, na famosa Salpêtrière de Paris.
Sua sóbria obra acerca da degenerescência e da criminalidade fornece
a Nietzsche importantes referências sobre o falso modo de vida e
alimentação dos doentes, dos degenerados no sentido amplo que, exatamente
a partir de sua degenerescência, escolhem arruinar-se. Os póstumos
mostram, da mesma maneira que o Caso Wagner e o Crepúsculo
dos ídolos, profundos traços da ocupação de Nietzsche com este
fisiólogo. O conhecido aforismo 52 do livro conhecido como “Vontade
de potência” (fragmento póstumo 15 (41) do início de 1888; KSA, 13,
p. 433), um texto de caráter fisiológico, singularmente terrível acerca
da ausência de compaixão na natureza para com os degenerados, não é
um texto de Nietzsche, mas uma tradução dele de um trecho do livro de
Féré: o que, sem dúvida, os compiladores da “Vontade de potência” não
revelaram aos seus leitores! Ao mesmo tempo em que Nietzsche tentou
acompanhar a mais recente situação da fisiologia, ele produziu para si
mesmo e para seus contemporâneos conceitos e metáforas pregnantes.
Isto é válido sobretudo para a complexa elaboração de uma fisiologia
da arte, motivada pelas pré-condições fisiológicas do êxtase. Deste mundo
de morbidezza, de aprisionamento pela doença, chegam outras vozes
parisienses que Nietzsche ouvia com uma singular atenção, tal como
pode-se concluir a partir dos póstumos e das citações referidas na obra:
Paul Bourget e Ernst Renan, os irmãos Goncourt, Baudelaire e muitos
outros escritores e cientistas menos importantes. A solidão de Nietzsche
era algo bem diferente de um bloqueio contra contemporâneos e livros
de contemporâneos. Recuperar este meio-ambiente vivo e histórico é
um pressuposto necessário para lê-lo corretamente.
7. Um método de conversão (sobre o qual Heidegger já chamara a
atenção); o destaque à décadence na filosofia, na religião, na moral, na
política, na arte; a tentativa de mostrar a limitação fisiológica da
décadence; o êxtase como o momento mais elevado da criação artística
(fisiologia da arte): enfim, a recordação da “visão dionisíaca do mundo”.
Com isso, queremos circunscrever o conteúdo do Crepúsculo dos
ídolos.
88 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
A conversão acontece, de início, no plano da teoria do conhecimento:
não é o mundo verdadeiro que tem realidade, mas a realidade é,
exatamente, aquele mundo descrito pela filosofia como aparente; dividir
o mundo em um “verdadeiro” e outro “aparente” é apenas uma sugestão
da décadence. O mesmo vale para a moral: as paixões, a sensualidade,
não devem apenas ser exterminadas, mas espiritualizadas. Mais
ainda: não há nenhum sentido em dizer que o homem deve ser assim e
assado. Deve-se afirmar, ao contrário, o império encantado dos tipos, de
um profuso jogo de formas e de mudanças na realidade. A moral é uma
degenerescência idiossincrática. Uma pessoa feliz e educada deve fazer
certas ações e, instintivamente, se envergonha diante de outras ações.
Sua virtude é conseqüência de sua felicidade (e não a felicidade conseqüência
de sua virtude). Neste ponto, então, a moral a partir de Sócrates,
através da igualdade entre razão, virtude e felicidade, que conduziu a
guerra contra os instintos, tornou-se uma expressão da décadence; o
moralismo da filosofia grega a partir de Platão era patologicamente limitado;
os instintos devem perder – esta é a fórmula da décadence.
Sócrates sabia que era doente, Sócrates quis morrer.
Esta e outras confrontações com a décadence devem ser compreendidas
de acordo com o princípio estabelecido por Nietzsche nos póstumos:
o pessimismo não é nenhum problema, mas apenas sintoma, o
nome correto para isso é niilismo; entretanto, “o niilismo não é nenhuma
causa, mas apenas a lógica da décadence” (fragmento póstumo 14
(86) do início de 1888; KSA, 13, p. 265). Valores niilistas, valores decadentes
conduzem à dominação sob os nomes mais sagrados. Onde falta
vontade de potência, há decadência. Todos os valores nos quais a humanidade
resume seus mais elevados desejos são valores da décadence.
Assim o diz Nietzsche em O anticristo. Mas, ao lado desse processo de
pensamento que se orienta pelo conceito de vontade de potência, há um
outro no Crepúsculo dos ídolos, do qual Nietzsche queria tratar no quarto
livro (“Dioniso filósofo”) da “Transvaloração de todos os valores”. Ele
não chegou até aí e, neste sentido, somos instruídos pela execução do
Crepúsculo dos ídolos. Com as palavras de Nietzsche: o valor da vida
não pode ser julgado, a vida não permite o juízo de um ser em particuMontinari,
M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 89
lar, porque este faz parte desta própria vida. “O indivíduo é parte do
fatum, à frente e atrás, é uma lei a mais, uma necessidade a mais para
tudo o que chega e virá. Dizer-lhe ‘muda tua natureza’ é desejar uma
transformação do todo, até mesmo uma transformação do passado...”
(GD/CI §§ 5 e 6). “Somos necessários, somos um fragmento do destino,
formamos parte do todo, estamos no todo: não há nada que possa dirigir
o nosso ser, medí-lo, compará-lo, julgá-lo... Não há nada fora do todo!
– Que ninguém mais possa ser responsabilizado, pois o ser não deve se
referir a uma causa primeira, pois o mundo não é nem uma unidade
como sensação, nem como ‘espírito’, eis a primeira grande libertação,
– com isso restaura-se a inocência do vir-a-ser... O conceito ‘Deus’ era
até aqui a maior objeção contra a existência... Nós negamos Deus, nós
negamos a responsabilidade em Deus: com isso, antes de mais nada,
redimimos o mundo-” (GD/CI § 8). “O poder que não tem mais necessidade
de nenhuma justificativa, que desdenha o agradar, que dificilmente
contesta, que não vê testemunhas em volta de si, que vive sem a consciência
de que há oposições contra ele; que nele descansa, fatalísticamente,
uma lei entre as leis (...)” (GD/CI § 11). Um espírito tornado
livre como Goethe “aparece no centro do universo com um fatalismo
feliz e confiante, na crença de que apenas o indivíduo é condenável, que
na totalidade tudo se resolve e se afirma – ele não renega mais... Mas,
uma tal crença é a maior de todas as crenças”. Nietzsche “a batizou com
o nome de Dioniso” (GD/CI § 49 e 50). “A afirmação da vida até em
seus problemas mais estranhos e duros; a vontade de viver, regozijandose
no sacrifício de seus tipos mais elevados da própria inesgotabilidade
– isso chamei de dionisíaco”; o poeta trágico quer ser ele mesmo “o
eterno prazer do vir-a-ser”, “todo prazer que em si encerra ainda o prazer
na destruição (...)”. “O nascimento da tragédia – assim conclui
Nietzsche o Crepúsculo dos ídolos – foi a minha primeira transvaloração
de todos os valores: com isso, retorno novamente ao solo do qual cresceu
meu querer, meu poder – eu, o último discípulo do filósofo Dioniso,
– eu, o mestre do eterno retorno...” (GD/CI § 5).
Esta posição, no fim, do pensamento do eterno retorno do mesmo,
não me parece ocasional. Este é um pensamento que está na conclusão
90 Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997
de toda uma história de vida e paixão. Através de sua afirmação, a vida
torna-se justificada, o mundo redimido, quando toda a dura realidade da
vida for percorrida por uma vontade de potência múltipla. Este pensamento
não se deixa compreender por fórmulas, ou melhor, todas as suas
formulações são provisórias e superáveis, na medida em que abarca num
todo a vida, o mundo e o tempo, mas não de forma transcendental, porque
ele já expressa a totalidade. Através dele acontece a confirmação da
imanência após a morte de Deus. Ele é, de fato, a maior justificativa da
vida e, nesta medida, está em oposição ao que calunia a vida; mas porque
isto é parte da vida, é também justificado e não julgável. Neste
sentido, o pensamento do eterno retorno não oferece à vida aquilo que,
como tal, o perspectivismo da vontade de potência precisa. Não se entrega
o conhecimento do eterno retorno a preço de pechincha. Por conseguinte,
existe uma tensão no pensamento do eterno retorno, considerado
por um lado como fundamento especulativo último, como inocência
do vir-a-ser, como redenção do mundo, como a mais elevada forma
de afirmação da vida e (por outro lado) como confrontação com situações
particulares, seja a filosofia até então, ou a modernidade, o niilismo
e a décadence, a moral ou a religião, uma tensão que não é superada,
que por princípio não deve ser superada. Uma sistematização geral da
vontade de potência como princípio eliminaria, por um lado, a resolução
da luta necessária ao perspectivismo e, por outro, se igualaria à construção
de uma metafísica da vontade de potência (análoga à metafísica
schopenhaueriana da vontade de vida). Mas, a presença do pensamento
do eterno retorno impede toda sistematização. Agora, entendemos o sentido
profundo da máxima de Crepúsculo dos ídolos: “A vontade de sistema
constitui uma falta de lealdade” (GD/CI § 26).
O sentido filosófico do Crepúsculo dos ídolos não é uma sistemática
da Vontade de potência, mas sua superação no pensamento do eterno
retorno do mesmo.
Montinari, M., cadernos Nietzsche 3, p. 77-91, 1997 91
Abstract: Starting from the idea that the philosophical interpretation of Nietzsche
has to have as its basis the philological-historical work, this article aims to present
The twilight of idols. It rebuilds the genesis of the book in the context of the “Will
to power”’s project.
Key-words: philology – history – will to power – eternal recurrence
Notas
(1) Peter Gast destaca que as palavras “Müssigang” (“ociosidade”) e “Müdigkeit”
(cansaço) iniciam com a mesma sílaba “Mü”. Mesmo que as palavras em português
não tenham esta mesma afinidade há, contudo, uma afinidade de sentido
quando se diz, por exemplo, “estou cansado de não fazer nada” ou “a ociosidade
cansa”, da mesma maneira que também se “acredita” em português que “a ociosidade
é a mãe de todos os vícios” (N.T.).
(2) Ao separar pelo hífen a palavra “Medizinisch” (que indicaria para o processo de
“medicalização” das condutas no século XIX), Montinari, por aliteração, faz soar
o “zynisch” (cínico) e, com isso, acentua o aspecto moralizador, do ponto de
vista médico-psiquiátrico, do estudo das degenerescências. Basta lembrar os
inúmeros estudos a respeito – de Foucault aos historiadores da psicanálise (N.T.).
Escolha 10 questões, se for (F), indique o erro corrigindo-a:
ATIVIDADE PARA NOTA
CESPE Período Simples
1 – (CESPE – PRODEST/2006-M) “ O “caso Pedrinho” (o garoto seqüestrado de uma família de classe média, em uma maternidade em Brasília), por exemplo, poderia ter passado despercebido por todos.”
( ) O termo “Pedrinho” é o sujeito sintático de “poderia ter passado despercebido por todos.”
2 – (CESPE – FR/SE/2006-M) “ Para alcançarmos o desenvolvimento sustentável é necessário o fortalecimento do capital social do país. É esse capital que ajuda a manter a coesão social, o que leva a uma sociedade mais aberta e democrática. Reflete também o grau de confiança existente entre os diversos atores sociais que formam as comunidades e a sua capacidade de estabelecer relações de cooperação e associação em torno dos interesses comuns...”
( ) A forma verbal “Reflete” tem como sujeito elíptico “esse capital”.
3– (CESPE – CODEBA/2006-M) “ Tenho uma pequena força, o suficiente para garantir o pão nosso de cada dia, e mesmo alguma manteiga, o que não é pouco, neste país em que muita gente morre de fome”
( ) A expressão “ pequena força” é o sujeito de “o que não é pouco”.
4– (CESPE – SGA/SESACRE/2006-M) “...Nos casos em que não se constata uma urgência maior, o profissional encaminha a pessoa a uma unidade de saúde. Nas outras situações, define se é necessário o envio de uma ambulância básica ”
( ) O sujeito de “define” é “ a pessoa”.
6 – (CESPE – SAD/MT/2007-M) “Pensei em reescrever minha vida de trás para frente, de ponta-cabeça, mas não posso, mal consigo rabiscar. As palavras são manchas no papel, e escrever é quase um milagre... Sinto no corpo o suor da agonia, e o que se lê pouco antes do fim. Na margem da última página, estas palavras: “meia-noite é pouco”.
( ) Na oração “ Escrever é quase um milagre”, o termo “escrever” desempenha a função sintática de sujeito.
7 - (CESPE – SAD/MT/2007-M) “O Ministério da Educação pela pontuação surpreendente obtida na Prova Brasil, que mediu conhecimentos de 3.306.378 alunos de 4ª a 8ª séries. A professora já havia percebido que a turma melhorava desde o primeiro bimestre, mas explicações para o milagre veio agora...”
( ) Na oração “ A professora já havia percebido” “havia” está sendo empregado como verbo impessoal.
8 – (CESPE/2008-S)” Dentro de um mês tinha comigo vinte aranhas, no mês seguinte cinqüenta e cinco, em março de 1877 contava quatrocentas e noventa.”
( ) O verbo TER, na linha 1, está empregado no sentido de HAVER, EXISTIR, por isso mantém-se no singular, sem concordar com o sujeito da oração – “ vinte aranhas”.
9 - (CESPE – MMA/AGUA/2009-S) Esforços vãos. As partidas demarcadoras, as missões apostólicas, as viagens governamentais, com as suas frotas de centenas de canoas, e os seus astrônomos comissários apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões solitários e armavam rapidamente no altiplano das “barreiras” as tendas suntuosas da civilização em viagem. Regulavam as culturas; poliam as gentes; aformoseavam a terra.
( ) No período “Regulavam as culturas; poliam as gentes; aformoseavam a terra” , o sujeito das orações é indeterminado.
10 - (CESPE – TCE/GO – TO) “Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora,quitando.”
a) ( ) No trecho “Casos houve, ainda que raros” , a forma verbal “houve” é substituível por houveram, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original do texto.
11 - (CESPE – TRT/ES) Se tanta companhia não vale como consolo, a vantagem de ter muita gente sofrendo com o problema é que isso estimula as pesquisas científicas. “Há equipes estudando o uso de células-tronco para tratamento da calvície”, conta Leite Jr.
( ) Na linha 2, o sujeito da forma verbal ‘Há’ é o substantivo ‘equipes’.
12 - (CESPE –ANA) “Nós tivemos uma ampla participação de todos os setores usuários na construção do plano, mas é importante eles incorporarem os princípios, as diretrizes e os programas já na fase de planejamento da sua ação de forma que essas ações sejam sustentáveis”.
( ) No trecho entre aspas nas linhas de 15 a 19, os pronomes ‘Nós’ e ‘eles’ funcionam como sujeitos, respectivamente, das formas flexionadas dos verbos ter e incorporar.
13 - (CESPE-MMA/ALFA-2008) “O bom momento que vive a economia nacional estimula suas vendas, mas a indiscutível preferência do consumidor pelo modelo flex tem outras razões.”
( ) No trecho “O bom momento que vive a economia nacional estimula suas vendas” (l.1), o sujeito das formas verbais “vive” e “estimula” é o mesmo.
14 – (CESPE – PML/SP/2006-M)“O novo material sintético reduziu os custos dos comerciantes e incrementou a sanha consumista da civilização moderna.”
( ) As expressões “os custos” e “ a sanha” têm funções sintáticas diferentes.
15 - (CESPE – PMV/2007-M) “ Um episódio igualmente ilustrativo foi-me narrado pelo Dr. Ronaldo Tourne, antigo colega de ginásio. Disse-me ele que havia desenvolvido e montado, por conta própria, no hospital em que trabalha em Juiz de Fora, uma biblioteca para os internados.”
( ) A palavra “biblioteca” é um substantivo coletivo com função de objeto direto.
16 - (CESPE-SEPLAG-Professor-2008)
I Abordar o conteúdo de forma diferenciada
II Atender o aluno durante atividades em sala
III Combater a competição entre os pares
IV Considerar o conhecimento prévio dos estudantes
V Dar liberdade ao aluno para escolher o momento para ser avaliado
( ) Os verbos que introduzem as sugestões de I a IV exigem complemento
17 - (CESPE – TRE/PA/2007-M) “ Para mostrar a importância do voto aos 16 anos de idade, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) realizou a campanha TE LIGA 16 – O Brasil só ganha se você tiver esse título. O objetivo da campanha foi conscientizar os jovens de 16 anos da responsabilidade do voto e da participação política. “Votar aos 16 anos” é despertar uma consciência cidadã. Ficar em casa reclamando que política é ruim não está com nada. Está na hora de não só pensar, mas de decidir, disse o professor Pedro.
A presidenta da Comissão de Educação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre completou a introdução do professor, chamando a atenção dos estudantes para o poder de decisão que eles têm. “Somos 33 milhões de brasileiros entre 16 e 24 anos. A juventude brasileira, se unida, é suficiente para mudar qualquer coisa nesse país.”
( ) No primeiro parágrafo do texto, o trecho em negrito exerce a função sintática de adjunto adverbial de “campanha”.
( ) O trecho “ da responsabilidade do voto e da participação política” exerce função de complemento da forma verbal “foi”.
( ) O período “Votar aos 16 anos é despertar uma consciência cidadã” é composto por duas orações.
( ) A expressão “reclamando”(l.5) expressa ideia de causa.
( ) O sujeito da oração “Somos 33 milhões de brasileiros entre 16 e 24 anos” está subtendido: nós.
18 - (CESPE – PCES/2009-M) Muitos pais querem saber que atitudes tomar quando o filho se desentende com amigos ou colegas, quando chega em casa com marcas de briga, quando tem o costume de dirigir palavrões aos outros etc. Nesses casos, vale mais desvalorizar o fato do que procurar saber quem tinha razão. Se houve briga, foi porque todos participaram, portanto ninguém pode estar certo. Se nos dedicarmos a ensinar aos mais novos, em família e na escola, que, para conviver, é preciso ter consideração com o outro, relevar e fazer concessões, eles aprenderão melhor a controlar seus impulsos em favor do equilíbrio da vida em grupo. Rosely Sayão. Brigas e desentendimentos.
( ) Na linha 4, a conjunção “portanto” atribui à oração “ninguém pode estar certo” o sentido de causa.
( ) Na linha 5 a expressão “em família e na escola”, juntamente com as vírgulas que a intercalam, poderia ser transposta, sem prejuízo da correção gramatical e sem alteração do sentido original, para as seguintes posições dentro do período: ou imediatamente após a palavra “dedicarmos”, ou imediatamente após a palavra “ensinar”.
19 - (CESPE – MMA/ Água/ 2009) – Sem texto:
( ) Na oração “Há vinte meses que o Decreto foi revogado”, a forma verbal “Há” poderia ser corretamente substituída por Faziam.
( ) Na oração “Segue anexa a nota editorial”, foi atendida regra de concordância nominal, visto que o adjetivo “anexa” está no feminino para concordar com a expressão no feminino “a nota editorial”, que exerce a função de sujeito da oração.
20 –(CESPE – TRE/MG) “Partes diferentes de seu cérebro processaram à sua maneira a informação visual captada pelos olhos. Uma delas, o lobo temporal, registrou aquela luz pálida emanada de um disco que parecia flutuar
no espaço como uma experiência sublime, inexplicável, superior, poderosa, acachapante, religiosa.”
a) ( ) No trecho “Uma delas, o lobo temporal, registrou aquela luz pálida” , a expressão “lobo temporal” exerce a função sintática de vocativo.
21 - (CESPE – ME)““Talento só não basta”, disse Phelps na entrevista coletiva após a sexta medalha de ouro. “Muito trabalho, muita dedicação, é uma combinação de tudo... Tentar dormir e se recuperar, armar cada sessão de treino da melhor forma possível e acumular muito treino.”Época, 18/8/2008, n.º 535, p. 92 (com adaptações)
a) ( ) No último parágrafo, o sujeito dos verbos “Tentar”,“recuperar”, “armar” e “acumular” é o pronome “tudo”, que funciona como aposto.
22 - (CESPE – SGA/AC) “Uma decisão singular de um juiz da Vara de Execuções Criminais de Tupã, pequena cidade a 534 km da cidade de São Paulo, impondo critérios bastante rígidos para que os estabelecimentos penais da região possam receber novos presos, confirma a dramática dimensão da crise do sistema prisional.”
a) ( ) O trecho “pequena cidade a 534 km da cidade de São Paulo”(l.2-3) encontra-se entre vírgulas por exercer a função de aposto.
23 - (CESPE-MS/2008) “A diretora-geral da OPAS, com sede em Washington – EUA, Mirta Roses Periago, elogiou a iniciativa de estados e municípios brasileiros de levar a vacina contra a rubéola aos locais de maior fluxo de pessoas, especialmente homens, como forma de garantir a maior cobertura vacinal possível.”
( ) O nome próprio “Mirta Roses Periago” funciona como aposto de “A diretora-geral da OPAS”.
24 – (CESPE – PRODEST/2006-M) “ O “caso Pedrinho” (o garoto seqüestrado de uma família de classe média, em uma maternidade em Brasília), por exemplo, poderia ter passado despercebido por todos.”
( ) No início do parágrafo, a expressão entre parênteses é um aposto.
Período Simples Outras Bancas
1 -(CESGRANRIO-ANP/2008-S) Qual par de orações NÃO apresenta transformação da voz verbal?
(A) “(O rei) assegurou a integridade territorial” / A integridade territorial foi assegurada pelo rei.
(B) “(...) a Independência e a República teriam vindo mais cedo” / Mais cedo viriam a República e a Independência.
(C) “(...) quando abrissem seus livros de Geografia” / Quando seus livros de Geografia fossem abertos.
(D) “Nordestinos seriam impedidos de viajar para São Paulo”/ Impediriam nordestinos de viajar para São Paulo.
(E) “paulistas teriam de providenciar passaportes...” / Passaportes teriam de ser providenciados por paulistas.
2 - (FCC-TCAL-ANALISTA/2008-S) É a liberdade que dá à vida uma direção.
O termo sublinhado na frase acima exerce a mesma função sintática do termo sublinhado em:
(A) Sem passado e sem história, poderíamos ser livres?
(B) Liberdade seria, a meu ver, um sinônimo de decisão.
(C) Somos livres a cada vez que, agindo, recomeçamos.
(D) Liberdade seria, pois, começar o improvável.
(E) A liberdade nos liberta, o passado é argila que nos molda.
3 -(FCC-TCAL-ANALISTA/2008-S) A transposição para a voz passiva é possível apenas em:
(A) Novos gestos incutem à nossa vida um novo sentido.
(B) A liberdade aposta, sempre, em novas possibilidades.
(C) Na nossa capacidade de escolha estaria a nossa liberdade.
(D) A resolução desse dilema depende de uma grave decisão.
(E) As idéias fatalistas conspiram contra as ações libertárias.
4 - (FUNIVERSA/PC/2009-S) Assinale a alternativa em que o termo sublinhado contém mesmo valor semântico que o sublinhado em “O país mais desenvolvido do mundo” (linha 2).
(A) “no pelotão de frente da economia” (linha 5).
(B) “que não dispõe de base científica alguma” (linhas 7 e 8).
(C) “constrói a massa de sucesso mais forte” (linha 12).
(D) “uma profunda descrença, ou ignorância, da população” (linhas 12 e 13).
(E) “se defrontam com mentes impermeáveis a seu trabalho de erosão de mitos” (linhas 35 e 36).
CESPE Período Simples
1 – (CESPE – PRODEST/2006-M) “ O “caso Pedrinho” (o garoto seqüestrado de uma família de classe média, em uma maternidade em Brasília), por exemplo, poderia ter passado despercebido por todos.”
( ) O termo “Pedrinho” é o sujeito sintático de “poderia ter passado despercebido por todos.”
2 – (CESPE – FR/SE/2006-M) “ Para alcançarmos o desenvolvimento sustentável é necessário o fortalecimento do capital social do país. É esse capital que ajuda a manter a coesão social, o que leva a uma sociedade mais aberta e democrática. Reflete também o grau de confiança existente entre os diversos atores sociais que formam as comunidades e a sua capacidade de estabelecer relações de cooperação e associação em torno dos interesses comuns...”
( ) A forma verbal “Reflete” tem como sujeito elíptico “esse capital”.
3– (CESPE – CODEBA/2006-M) “ Tenho uma pequena força, o suficiente para garantir o pão nosso de cada dia, e mesmo alguma manteiga, o que não é pouco, neste país em que muita gente morre de fome”
( ) A expressão “ pequena força” é o sujeito de “o que não é pouco”.
4– (CESPE – SGA/SESACRE/2006-M) “...Nos casos em que não se constata uma urgência maior, o profissional encaminha a pessoa a uma unidade de saúde. Nas outras situações, define se é necessário o envio de uma ambulância básica ”
( ) O sujeito de “define” é “ a pessoa”.
6 – (CESPE – SAD/MT/2007-M) “Pensei em reescrever minha vida de trás para frente, de ponta-cabeça, mas não posso, mal consigo rabiscar. As palavras são manchas no papel, e escrever é quase um milagre... Sinto no corpo o suor da agonia, e o que se lê pouco antes do fim. Na margem da última página, estas palavras: “meia-noite é pouco”.
( ) Na oração “ Escrever é quase um milagre”, o termo “escrever” desempenha a função sintática de sujeito.
7 - (CESPE – SAD/MT/2007-M) “O Ministério da Educação pela pontuação surpreendente obtida na Prova Brasil, que mediu conhecimentos de 3.306.378 alunos de 4ª a 8ª séries. A professora já havia percebido que a turma melhorava desde o primeiro bimestre, mas explicações para o milagre veio agora...”
( ) Na oração “ A professora já havia percebido” “havia” está sendo empregado como verbo impessoal.
8 – (CESPE/2008-S)” Dentro de um mês tinha comigo vinte aranhas, no mês seguinte cinqüenta e cinco, em março de 1877 contava quatrocentas e noventa.”
( ) O verbo TER, na linha 1, está empregado no sentido de HAVER, EXISTIR, por isso mantém-se no singular, sem concordar com o sujeito da oração – “ vinte aranhas”.
9 - (CESPE – MMA/AGUA/2009-S) Esforços vãos. As partidas demarcadoras, as missões apostólicas, as viagens governamentais, com as suas frotas de centenas de canoas, e os seus astrônomos comissários apercebidos de luxuosos instrumentos, e os seus prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, àqueles rincões solitários e armavam rapidamente no altiplano das “barreiras” as tendas suntuosas da civilização em viagem. Regulavam as culturas; poliam as gentes; aformoseavam a terra.
( ) No período “Regulavam as culturas; poliam as gentes; aformoseavam a terra” , o sujeito das orações é indeterminado.
10 - (CESPE – TCE/GO – TO) “Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora,quitando.”
a) ( ) No trecho “Casos houve, ainda que raros” , a forma verbal “houve” é substituível por houveram, sem prejuízo para a correção gramatical e para o sentido original do texto.
11 - (CESPE – TRT/ES) Se tanta companhia não vale como consolo, a vantagem de ter muita gente sofrendo com o problema é que isso estimula as pesquisas científicas. “Há equipes estudando o uso de células-tronco para tratamento da calvície”, conta Leite Jr.
( ) Na linha 2, o sujeito da forma verbal ‘Há’ é o substantivo ‘equipes’.
12 - (CESPE –ANA) “Nós tivemos uma ampla participação de todos os setores usuários na construção do plano, mas é importante eles incorporarem os princípios, as diretrizes e os programas já na fase de planejamento da sua ação de forma que essas ações sejam sustentáveis”.
( ) No trecho entre aspas nas linhas de 15 a 19, os pronomes ‘Nós’ e ‘eles’ funcionam como sujeitos, respectivamente, das formas flexionadas dos verbos ter e incorporar.
13 - (CESPE-MMA/ALFA-2008) “O bom momento que vive a economia nacional estimula suas vendas, mas a indiscutível preferência do consumidor pelo modelo flex tem outras razões.”
( ) No trecho “O bom momento que vive a economia nacional estimula suas vendas” (l.1), o sujeito das formas verbais “vive” e “estimula” é o mesmo.
14 – (CESPE – PML/SP/2006-M)“O novo material sintético reduziu os custos dos comerciantes e incrementou a sanha consumista da civilização moderna.”
( ) As expressões “os custos” e “ a sanha” têm funções sintáticas diferentes.
15 - (CESPE – PMV/2007-M) “ Um episódio igualmente ilustrativo foi-me narrado pelo Dr. Ronaldo Tourne, antigo colega de ginásio. Disse-me ele que havia desenvolvido e montado, por conta própria, no hospital em que trabalha em Juiz de Fora, uma biblioteca para os internados.”
( ) A palavra “biblioteca” é um substantivo coletivo com função de objeto direto.
16 - (CESPE-SEPLAG-Professor-2008)
I Abordar o conteúdo de forma diferenciada
II Atender o aluno durante atividades em sala
III Combater a competição entre os pares
IV Considerar o conhecimento prévio dos estudantes
V Dar liberdade ao aluno para escolher o momento para ser avaliado
( ) Os verbos que introduzem as sugestões de I a IV exigem complemento
17 - (CESPE – TRE/PA/2007-M) “ Para mostrar a importância do voto aos 16 anos de idade, a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) realizou a campanha TE LIGA 16 – O Brasil só ganha se você tiver esse título. O objetivo da campanha foi conscientizar os jovens de 16 anos da responsabilidade do voto e da participação política. “Votar aos 16 anos” é despertar uma consciência cidadã. Ficar em casa reclamando que política é ruim não está com nada. Está na hora de não só pensar, mas de decidir, disse o professor Pedro.
A presidenta da Comissão de Educação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre completou a introdução do professor, chamando a atenção dos estudantes para o poder de decisão que eles têm. “Somos 33 milhões de brasileiros entre 16 e 24 anos. A juventude brasileira, se unida, é suficiente para mudar qualquer coisa nesse país.”
( ) No primeiro parágrafo do texto, o trecho em negrito exerce a função sintática de adjunto adverbial de “campanha”.
( ) O trecho “ da responsabilidade do voto e da participação política” exerce função de complemento da forma verbal “foi”.
( ) O período “Votar aos 16 anos é despertar uma consciência cidadã” é composto por duas orações.
( ) A expressão “reclamando”(l.5) expressa ideia de causa.
( ) O sujeito da oração “Somos 33 milhões de brasileiros entre 16 e 24 anos” está subtendido: nós.
18 - (CESPE – PCES/2009-M) Muitos pais querem saber que atitudes tomar quando o filho se desentende com amigos ou colegas, quando chega em casa com marcas de briga, quando tem o costume de dirigir palavrões aos outros etc. Nesses casos, vale mais desvalorizar o fato do que procurar saber quem tinha razão. Se houve briga, foi porque todos participaram, portanto ninguém pode estar certo. Se nos dedicarmos a ensinar aos mais novos, em família e na escola, que, para conviver, é preciso ter consideração com o outro, relevar e fazer concessões, eles aprenderão melhor a controlar seus impulsos em favor do equilíbrio da vida em grupo. Rosely Sayão. Brigas e desentendimentos.
( ) Na linha 4, a conjunção “portanto” atribui à oração “ninguém pode estar certo” o sentido de causa.
( ) Na linha 5 a expressão “em família e na escola”, juntamente com as vírgulas que a intercalam, poderia ser transposta, sem prejuízo da correção gramatical e sem alteração do sentido original, para as seguintes posições dentro do período: ou imediatamente após a palavra “dedicarmos”, ou imediatamente após a palavra “ensinar”.
19 - (CESPE – MMA/ Água/ 2009) – Sem texto:
( ) Na oração “Há vinte meses que o Decreto foi revogado”, a forma verbal “Há” poderia ser corretamente substituída por Faziam.
( ) Na oração “Segue anexa a nota editorial”, foi atendida regra de concordância nominal, visto que o adjetivo “anexa” está no feminino para concordar com a expressão no feminino “a nota editorial”, que exerce a função de sujeito da oração.
20 –(CESPE – TRE/MG) “Partes diferentes de seu cérebro processaram à sua maneira a informação visual captada pelos olhos. Uma delas, o lobo temporal, registrou aquela luz pálida emanada de um disco que parecia flutuar
no espaço como uma experiência sublime, inexplicável, superior, poderosa, acachapante, religiosa.”
a) ( ) No trecho “Uma delas, o lobo temporal, registrou aquela luz pálida” , a expressão “lobo temporal” exerce a função sintática de vocativo.
21 - (CESPE – ME)““Talento só não basta”, disse Phelps na entrevista coletiva após a sexta medalha de ouro. “Muito trabalho, muita dedicação, é uma combinação de tudo... Tentar dormir e se recuperar, armar cada sessão de treino da melhor forma possível e acumular muito treino.”Época, 18/8/2008, n.º 535, p. 92 (com adaptações)
a) ( ) No último parágrafo, o sujeito dos verbos “Tentar”,“recuperar”, “armar” e “acumular” é o pronome “tudo”, que funciona como aposto.
22 - (CESPE – SGA/AC) “Uma decisão singular de um juiz da Vara de Execuções Criminais de Tupã, pequena cidade a 534 km da cidade de São Paulo, impondo critérios bastante rígidos para que os estabelecimentos penais da região possam receber novos presos, confirma a dramática dimensão da crise do sistema prisional.”
a) ( ) O trecho “pequena cidade a 534 km da cidade de São Paulo”(l.2-3) encontra-se entre vírgulas por exercer a função de aposto.
23 - (CESPE-MS/2008) “A diretora-geral da OPAS, com sede em Washington – EUA, Mirta Roses Periago, elogiou a iniciativa de estados e municípios brasileiros de levar a vacina contra a rubéola aos locais de maior fluxo de pessoas, especialmente homens, como forma de garantir a maior cobertura vacinal possível.”
( ) O nome próprio “Mirta Roses Periago” funciona como aposto de “A diretora-geral da OPAS”.
24 – (CESPE – PRODEST/2006-M) “ O “caso Pedrinho” (o garoto seqüestrado de uma família de classe média, em uma maternidade em Brasília), por exemplo, poderia ter passado despercebido por todos.”
( ) No início do parágrafo, a expressão entre parênteses é um aposto.
Período Simples Outras Bancas
1 -(CESGRANRIO-ANP/2008-S) Qual par de orações NÃO apresenta transformação da voz verbal?
(A) “(O rei) assegurou a integridade territorial” / A integridade territorial foi assegurada pelo rei.
(B) “(...) a Independência e a República teriam vindo mais cedo” / Mais cedo viriam a República e a Independência.
(C) “(...) quando abrissem seus livros de Geografia” / Quando seus livros de Geografia fossem abertos.
(D) “Nordestinos seriam impedidos de viajar para São Paulo”/ Impediriam nordestinos de viajar para São Paulo.
(E) “paulistas teriam de providenciar passaportes...” / Passaportes teriam de ser providenciados por paulistas.
2 - (FCC-TCAL-ANALISTA/2008-S) É a liberdade que dá à vida uma direção.
O termo sublinhado na frase acima exerce a mesma função sintática do termo sublinhado em:
(A) Sem passado e sem história, poderíamos ser livres?
(B) Liberdade seria, a meu ver, um sinônimo de decisão.
(C) Somos livres a cada vez que, agindo, recomeçamos.
(D) Liberdade seria, pois, começar o improvável.
(E) A liberdade nos liberta, o passado é argila que nos molda.
3 -(FCC-TCAL-ANALISTA/2008-S) A transposição para a voz passiva é possível apenas em:
(A) Novos gestos incutem à nossa vida um novo sentido.
(B) A liberdade aposta, sempre, em novas possibilidades.
(C) Na nossa capacidade de escolha estaria a nossa liberdade.
(D) A resolução desse dilema depende de uma grave decisão.
(E) As idéias fatalistas conspiram contra as ações libertárias.
4 - (FUNIVERSA/PC/2009-S) Assinale a alternativa em que o termo sublinhado contém mesmo valor semântico que o sublinhado em “O país mais desenvolvido do mundo” (linha 2).
(A) “no pelotão de frente da economia” (linha 5).
(B) “que não dispõe de base científica alguma” (linhas 7 e 8).
(C) “constrói a massa de sucesso mais forte” (linha 12).
(D) “uma profunda descrença, ou ignorância, da população” (linhas 12 e 13).
(E) “se defrontam com mentes impermeáveis a seu trabalho de erosão de mitos” (linhas 35 e 36).
domingo, 18 de abril de 2010
Fernando Pessoa
Nascimento: 1888 Lisboa
Morte: 1935
Época: Modernismo
País: Portugal
livros livrarias poesia arte poetas autores biografias
Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.
De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.
Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1913 a publicação de «Impressões do Crepúsculo» (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paúlismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença.
A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o
--------------------------------------------------------------------------------
13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.
Morte: 1935
Época: Modernismo
País: Portugal
livros livrarias poesia arte poetas autores biografias
Escritor português, nasceu a 13 de Junho, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.
De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.
Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1913 a publicação de «Impressões do Crepúsculo» (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paúlismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.
Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença.
A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.
Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o
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13 de junho de 1888 - Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando Antônio Nogueira Pessoa.
1896 - Parte para Durban, na África do Sul.
1905 - Regressa a Lisboa
1906 - Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 - Abandona o curso.
1914 - Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterônimos.
1915 - Primeiro número da Revista "Orfeu". Pessoa "mata" Alberto Caeiro.
1916 - Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 - Surge a Revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 - Fernando Pessoa requere patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 - Passa a colaborar com a Revista "Presença".
1934 - Aparece "Mensagem", seu único livro publicado.
30 de novembro de 1935 - Morre em Lisboa, aos 47 anos.
terça-feira, 2 de março de 2010
Incidente em Antares
Olá alunos, abaixo, vcs encontrarão os primeiros capítulos do livro de Érico Verrissimo. Sucesso!Se quiserem o livro todo, digite o endereço abaixo, entre na pasta - 3 Ano - e copie. Sucesso!!!
http://cid-39e46ad2238bfc7e.spaces.live.com/
http://cid-39e46ad2238bfc7e.spaces.live.com/
ERICO VERÍSSIMO INCIDENTE EM ANTARES
Copyright © 1971 by Erico Verissimo
Copyright © 1988 by Herdeiros de Erico Verissimo
Ilustração de capa: Iberê Camargo (detalhe)
Foto de Geraldo Viola / Arq. Editora Globo
Direitos mundiais de edição em língua portuguesa cedidos a
EDITORA GLOBO S.A.
Rua Domingos Sérgio dos Anjos, 277
CEP 05136-170 - Fax: (011) 864-0271, São Paulo, SP
Brasil
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. - nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora.
Impressão e acabamento:
RR Donnelley & Sons Company - EUA
CIP-Brasil. Catalogaçào-na-fonte – Câmara Brasileira do livro, SP
Veríssimo, Erico, 1905-1975.
Incidente em Antares / Erico Verissimo. – 45ª ed. - São Paulo: Globo, 1995
ISBN 85-250-0590-8 1. Romance brasileiro I. Título 88-05189 CDD-869935
Índices para catalogo sistemático:
1. Romances: Século 20: Literatura brasileira 869-935
2. Século 20: Romances: Literatura brasileira 869.935
Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, são designados pelos seus nomes verdadeiros.
(Nota do Autor)
primeira parte
ANTARES
I
Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da Paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacape ricado de espigões pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há cerca de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde – só Deus sabe ao certo quando – veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que época da Era Cenozóica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espécimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de car-tógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, n|o mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada têm servido os memoriais assinados pelo Prefeito Municipal, pelos membros da Câmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, protestando contra a acintosa omissão. O Pe. Gerôncio Albuquerque, quando ainda vigário da Matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vão, idêntica reclamação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente.
No entanto a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio.
O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia – fama um tanto ambígua e efêmera, é verdade – não só no Estado do Rio Grande do Sul como também no resto do Brasil e mesmo através de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, não sensibilizou até agora geógrafos e cartógrafos.
Tão insólitos, lúridos e tétricos – e estes adjetivos foram catados no artigo alusivo àquele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu diário A Verdade, porém jamais publicado, por motivos que oportunamente serão revelados – tão fantásticos foram esses acontecimentos, que o Pe. Gerôncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o começo do Juízo Final. Nesse momento de susto e angústia coletiva, um cético gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: “A troco de quê Deus havia de começar o Juízo Final logo neste cafundó onde Judas perdeu as botas?”
Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idéia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaxia, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana.
II
O mais antigo documento escrito que se conhece referente ao lugar onde mais tarde viria a ser fundada essa comunidade da região missioneira do Rio Grande do Sul, encontra-se no livro do naturalista francês Gaston Gontran d’Auberville, intitulado Voyage Pittoresque au Sud du Brésil (1830-1831). Escreveu o ilustre cientista em seu diário de viagem :
24 de abril. – Cruzamos esta manhã o Rio Uruguai, numa balsa, e entramos em território do Brasil. Estes campos verdes, duma beleza idílica, lembram os da nossa Provence. Aqui as pastagens são boas e o gado bovino, abundante. Os primeiros homens que encontramos, tanto os brancos como os índios, me olham com uma curiosidade meio desconfiada, que acho justificável, pois devem estranhar a minha indumentária, o meu aspecto físico e principalmente a minha bagagem: as gaiolas em que trago os pássaros vivos que apanhei no Paraguai e na Argentina, e os sacos e caixas cheios das plantas e pedras que venho colecionando desde o momento em que pisei terras do Novo Mundo.
Cerca das dez horas da manhã, chegamos a um lugarejo pertencente à comarca de São Borja e conhecido como Povinho da Caveira, formado por uma escassa dúzia de ranchos pobres, perto da barranca do rio. A pouca distância deles, situa-se a casa do proprietário destas terras, que me recebeu com certa cortesia. E um homem ainda jovem, de compleição robusta, cabelos e barbas castanhos e pele clara. Tem um ar autoritário, costuma falar muito alto, parece habituado a dar ordens e a ser obedecido. Chama-se Francisco Vacariano, nome provavelmente derivado da palavra “vaca” e que não me parece legítimo, mas adotado. A casa da estância de gado do Sr. Vacariano é apenas um rancho maior que os outros da povoação. Comunico-me com esse senhor no meu -precário espanhol, e ele me responde na mesma língua mas usando, uma vez que outra, palavras portuguesas.
Almoçamos ao meio-dia e o estancieiro nos serviu, numa grande marmita de ferro, pedaços de carne seca (aqui chamada “charque”) com farinha de mandioca, tudo misturado com gordura animal. O Sr. Vacariano imaginava que eu era uma espécie de mascate. Ficou desapontado quando verificou que eu não trazia tabaco, açúcar nem sal, gêneros de que carece no momento. Expliquei-lhe que sou um cientista e o meu hospedeiro pareceu não me dar crédito, pois acha impossível que um homem empreenda uma tão longa e penosa viagem apenas para apanhar bichos e juntar plantas e pedras.
Percebi que o Sr. Vacariano não confia nos “homens do outro lado do rio” nem parece gostar deles. Tal coisa não é para estranhar-se, se levarmos em conta que recentemente o Brasil esteve envolvido numa guerra com a Argentina pela posse da chamada Banda Oriental.
O meu guia, que é um homem loquaz e grande conhecedor desta região e desta gente, duma margem e outra do rio, assegurou-me que o meu hospedeiro não só herdou as sesmarias que a Coroa de Portugal concedeu ao seu avô, no início do povoamento desta província, como também se apossou pela força de algumas léguas de campo -pertencentes a outros estancieiros vizinhos, que pôs em fuga, sob ameaças. Contou-me ainda o dito guia que boa parte do rebanho de gado que o Sr. Vacariano hoje possui é formado de descendentes dos bois e vacas que o seu pai roubou na Argentina, aproveitando a confusão de tempos de desordens e lutas intestinos no país vizinho. O guia me pediu discrição absoluta, quanto a essas informações, pois, ao que diz, o Sr. Vacariano é um homem violento e vingativo.
Fui informado de que os índios deste pouoado pensam que sou um feiticeiro, e que o capataz do meu hospedeiro está convencido de que não passo de um bispo disfarçado que aqui veio, a mandado do Papa, para estudar a possibilidade do restabelecimento das reduções jesuíticas que outro-ra floresceram nesta região. O que, porém, mais me perturbou foram as palavras que o próprio Sr. Vacariano pronunciou, ao fim de nosso almoço. Reproduzo-as aqui, verbatim: “Sabe o que fiz com o último lotador de impostos que apareceu nestas terras’! Mandei matá-lo e atirei seu corpo no rio”. Felizmente, depois dessa ameaça soltou uma risada, deu-me uma palmada cordial nas costas e declarou que era um homem de boa-fé e portanto acreditava em que eu era mesmo um colecionador de plantas e passarinhos, pois “cada louco tem a sua mania”.
Passei a tarde herborizando nos arredores do povoado. A hora de recolher, o Sr. Vacariano prometeu proporcionar-me, ao amanhecer do dia seguinte, “um espetáculo inesquecível”.
Passei a noite quase sem dormir, por causa dos mosquitos.
III
25 de abril. – Antes do nascer do sol montamos a cavalo, meu hospedeiro e eu, e nos dirigimos para uma várzea, a uma escassa légua de sua estância, e apeamos perto dum bosque, onde ficamos à espera do clarear do dia. Quando o sol apareceu, vi diante de mim uma planície pantanosa cheia duma grande variedade de aves aquáticas. Mal consegui esconder o meu pasmo e o meu júbilo, pois aquilo se me afigurava o sonho dourado dum naturalista. No primeiro relance, pude perceber ali graciosas garças, íbis, grous, galinhas-d’agua, patos, narcejas, alguns exemplares dum pássaro que, à distância, me pareceu do gênero Francoli-nus, mas dum tamanho acima do comum. Tive im.pe.tos de correr na direção daquele congresso de aves e apanhar as que pudesse, mas o Sr. Vacariano me segurou o braço, di-zendo-me que esperasse, pois havia “algo e spedar que me queria mostrar. Pouco depois apontou para uma árvore des-folhada, a uns vinte metros de onde estávamos, e eu vi, em-poleirada num dos seus galhos, uma garça dum alvor de neve, de linhas elegantes, e que em dado momento voltou a cabeça na direção do sol nascente, perfilou-se, esticou o longo pescoço e soltou um assobio prolongado, duma suavidade indescritível, a um tempo bucólico e triste, lembrando o pífaro dum pastor. Era como se a ave estivesse cantando um hino ao dia nascente. Numa espécie de transe, eu pensava nas belezas que a imaginação criadora e dadivosa de Deus espalhou pelo universo, quando o Sr. Vacariano me disse que os índios chamavam àquela garça “flauta do sol”. (Tratava-se evidentemente de um exemplar da Ardea cyanoce-phala.)
Voltamos para a estância e durante o resto do dia colhi exemplares de gramináceas e solanáceas e outras plantas que encontrei naqueles prados paradisíacos. O meu hospedeiro pareceu ter simpatizado comigo, pois quando lhe pedi emprestadas duas juntas de bois, para substituir os animais cansados que haviam puxado nossa carreta até ali, ele acedeu prontamente ao vieu pedido.
A noite, depois do jantar, saímos ambos a caminhar nos arredores da casa da estância. Como para lhe pagar pelo formoso espetáculo da manhã, localizei no céu a constelação de Escorpião, que no hemisfério austral começa a aparecer no horizonte, a leste, depois de 15 de abril, mostrei ao Sr. Vacariano a bela estrela chamada Antares, e disse-lhe que, embora não parecesse, ela era maior do que o Sol. O meu hospedeiro olhou para a estrela em silêncio e mais tarde, quando chegamos a casa, murmurou: “Antares.... Bonito nome. Para mim quer dizer ‘lugar onde existem muitas antas’, bem como nestas terras perto do rio”. Pediu-me que escrevesse essa palavra, o que fiz, num pedacinho de papel, para o qual o Sr. Vacariano ficou olhando durante algum tempo, murmurando: “Bonito nome para um povoado... melhor que Povinho da Caveira”. Depois, guardando o papel no bolso, sorriu com seus fortes dentes de carnívoro e acrescentou: “Mas não acredito que essa estrela seja mesmo maior que o Sol”.
IV
Outro documento, pouquíssimo conhecido mas também importante, sobre o que se poderia chamar de pré-história de Antares é uma carta escrita pelo P.« Juan Bautista Otero, S. J., ao provincial de sua ordem, em Buenos Aires. Conta o missionário nessa missiva, datada de 4 de dezembro de 1832, que cruzou o Rio Uruguai e chegou ao Povinho da Caveira onde pediu e obteve permissão do dono daquelas terras, um certo Sr. Francisco Bacariano (sic) para fazer casamentos e batizados. Eis um trecho da referida carta:
Aqui vivem muitos índios e índias em estado de indi-gência e, o que é ainda pior, em pecaminosa mancebia. Por outro lado, a ausência de mulheres da raça branca neste aldeamento leva os homens de origem portuguesa a servirem-se dessas indígenas para a satisfação de sua luxúria. O próprio Sr. Bacariano, segundo me informou pessoa digna de fé, é pai de quase uma dezena de filhos naturais com várias destas süvícolas, mas não os batiza nem legitima. Horroriza-me a idéia de que um dia quando adultas, essas criaturas venham, sem o saber, a cometer incesto. Este é, porém, um problema que por ora temos de deixar nas mãos misericordiosas de Deus. Assim, nestes últimos três dias tenho celebrado muitos casamentos e batizado grande número de pagãos, não só crianças como também adultos. Ontem, domingo, rezei uma missa ao ar livre, com apreciável concorrência. O Sr. Bacariano não me parece ter muito respeito pela nossa religião ou por qualquer outra, mas apesar disso me tem tratado com consideração e até facilitado o meu trabalho apostolar. Perguntei-lhe, com o devido respeito, se não pretendia casar-se, e ele me respondeu que, dentro de poucos meses, iria a Alegrete para contrair núpcias com uma moça, de nome Angélica, filha dum abastado estancieiro daquela localidade.
V
Que esse casamento se realizou, é fato fora de dúvida, pois seu registro se encontra nos velhos livros da Matriz de Alegrete.
Chico Vacariano teve com sua esposa legítima ao todo sete descendentes-, entre homens e mulheres. Para grande alegria sua, nasceu-lhe primeiro um filho macho, que recebeu o nome de Antônio Maria.
Um ano após o nascimento do primogênito, teve Francisco Vacariano de enfrentar um longo período de dificuldades e agruras, durante o qual se viu mais de uma vez na iminência de perder suas terras, seu gado e o resto de seus bens. Foi por ocasião da chamada Guerra dos Farrapos deflagrada por milhares de homens daquela província que se 3rgueram em armas contra o governo imperial, então nas mãos dum Regente, pois o príncipe Dom Pedro, herdeiro do trono, não atingira ainda a maioridade.
Francisco Vacariano jamais tomou uma posição definida nessa luta. Se por um lado estava convencido da justiça da causa revolucionária, por outro o fato de os rebeldes haverem proclamado a República do Piratini lhe causava um certo desagrado, que ele exprimiu à sua mulher nestas palavras: “Um imperador é uma espécie de pai que a gente tem. Numa república me parece que todo o mundo fica meio órfão...”.
Assim, Chico Vacariano – como mais tarde viria a dizer com malícia um de seus inimigos – tratou de “jogar com pau de dois bicos”. Abrigava altemadamente em suas terras ora tropas revolucionárias ora tropas legalistas. Atendeu as requisições de cavalos, gado e mantimentos que lhe faziam ambas as facções. De resto, como poderia dizer “não” a maiorias armadas?
O que muito o favoreceu nesse jogo dùplice foi o fato de o Povinho da Caveira ser uma localidade de difícil acesso, pouco lembrada pela revolução e completamente esquecida pelo resto do mundo. Mesmo assim, duma feita Chico Vacariano e seus familiares tiveram de cruzar o rio às pressas, refugiando-se durante mais de um ano na Argentina.
A guerra civil durou quase um decênio inteiro. Vacariano costumava dizer que aquela campanha era a principal responsável pelos seus primeiros cabelos brancos e pelas precoces rugas que lhe vincavam a face. Terminada definitivamente a luta, Chico voltou ao pago, reconstruiu a sua casa, que na sua ausência quase virará tapera, e tratou de refazer aos poucos o seu rebanho bovino e recuperar o seu prestígio pessoal naquela região. O tratado de paz entre os Farrapos e os Imperiais tinha sido firmado com tanta dignidade e patriotismo, de ambas as partes, que duma simples leitura de seus termos não se poderia deduzir quem tinha sido o vencedor e quem o vencido.
Nunca ninguém perguntou a Chico Vacariano, pelo menos cara a cara, de que lado havia ele pelejado durante a guerra civil. E esse foi um assunto que o senhor de Povinho da Caveira sempre evitou pelo resto de sua vida natural.
O Povinho foi elevado a vila por alvará de 25 de maio de 1853, data em que recebeu oficialmente o nome de An-tares. Pouca gente entendeu a razão dessa mudança ou o sentido da nova denominação. Muitos, como Chico Vacariano, imaginavam que Antares significava “lugar das antas”. Houve até quem pensasse tratar-se do nome de um general brasileiro, herói de alguma daquelas muitas guerras contra os castelhanos.
Durante mais de dez anos Francisco Vacariano – como havia já acontecido desde 1829 no primitivo Povinho – foi a autoridade suprema e inconteste na vila. Nem mesmo o governo provincial tentava intervir na vida daquela pequena comunidade ribeirinha, que ainda fazia parte do município de São Borja.
VI
No verão de 1860 chegou ao conhecimento de Chico Vacariano que um certo Anacleto Campolargo, criador de gado e homem de posses, natural de Uruguaiana, ia comprar terras nas proximidades de Antares. Murmurava-se que esses Campolargos eram descendentes por linha reta dum tropeiro paulista que entrara um dia numa furna do cerro do Jarau – talvez na famosa Salamanca da antiga lenda – encontrando lá um fabuloso tesouro, pois de outro modo ninguém podia explicar como um modesto negociante de mulas andasse sempre com a sua guaiaca cheia de onças de ouro, rutilantes como sóis.
Mesmo sem jamais ter visto a cara de Anacleto Campolargo, o senhor de Antares fez o possível para que a transação não se consumasse. “Não quero intrusos por aqui!” – dizia. Ora, essas terras que Campolargo queria adquirir pertenciam a um chefe político de São Borja, homem influente, amigo íntimo do governador da província. Chico Vacariano não teve outro remédio senão “engolir o sapo”, segundo uma expressão sua.
Consumada a transação, Anacleto Campolargo mandou logo construir uma grande residência de alvenaria em Antares, na praça do Império, naquele tempo pouco mais que um potreiro onde cavalos e vacas pastavam.
A primeira vez em que Chico Vacariano e Anacleto Campolargo se defrontaram nessa praça, os homens que por ali se encontravam tiveram a impressão de que os dois estancieiros iam bater-se num duelo mortal. Foi um momento de trepidante expectativa. Os dois homens estacaram de repente, frente a frente, olharam-se, mediram-se da cabeça aos pés, e foi ódio à primeira vista. Chegaram ambos a levar a mão à cintura, como para arrancar as adagas. Nesse exato momento o vigário surgiu à porta da igreja, exclamando: “Não! Pelo amor de Deus! Não!”
Nenhum dos dois potentados parecia amar a Deus e muito menos ao vigário. Contiveram-se, porém, cada qual uma secreta razão particular, e depois retomaram ambos seu caminho, seguindo em sentidos opostos.
Foi assim que entre as duas dinastias antarenses, a dos Vacarianos e a dos Campolargos, começou uma feroz rivalidade, que deveria durar quase sete decênios, com períodos de maior ou menor intensidade, ao sabor de acontecimentos de ordem política, econômica ou puramente pessoal.
VII
Pouco a pouco Anacleto Campolargo foi conquistando amigos e impondo-se ao respeito e à estima de boa parte da população antarense. Era o primeiro homem na história daquela comunidade que ousava enfrentar o “Chico Vaca” – como lhe chamavam pelas costas os seus desafetos. Agressivo, opiniático, autoritário, o patriarca do clã dos Vacarianos era um sujeito sem tato. Suas palavras em geral soavam como chicotadas. O maioral dos Campolargos, porém, sinuoso e macio, cultivava o murmúrio, sabia “manipular” suas emoções e modular o tom da voz de acordo com a sua conveniência e os seus propósitos. Tinha um ar paternal, freqüentemente chamava o interlocutor de “meu filho”, se estava diante dum jovem, ou de “meu chefe”, se falava com um ancião. (“Já provou deste fumo? Não? É especial. Tem palha? Pois faça um crioulo. Pode ficar com esse naco. Ora, obrigado por quê?”)
Homem de algumas letras, Anacleto Campolargo organizou na vila o Partido Conservador, o que bastou para que Chico Vacariano, até então um tanto indiferente em matéria de política, tratasse de organizar o Partido Liberal.
Assim, Antares passou a ter dois senhores igualmente poderosos. Era exatamente essa igualdade de forças que impedia as duas facções de se empenharem em batalhas campais de extermínio. Continuando uma velha tradição, nas missas de domingo e dias santos, os conservadores sentavam-se nos bancos da direita, à frente do altar-mor, e os liberais nos da esquerda. Em seus sermões, pregados com voz trêmula, o vigário fazia acrobacias de retórica para não dizer nada que pudesse, mesmo de leve, descontentar qualquer dos dois grupos. Quando alguém lhe perguntava em particular para qual dos dois proceres antarenses inclinavam-se as suas simpatias, o pároco sussurrava, olhando dum lado para outro, a medo-, “Deus é o meu único chefe e a Igreja a minha única política”. Neutralidade, entretanto, era uma palavra inexistente no vocabulário político e social de An-tares. O forasteiro que ali chegasse, mesmo para uma visita breve, era praticamente obrigado a tomar logo partido.
Tanto os Campolargos como os Vacarianos eram criadores de gado e de cavalos. Foi, porém, o velho Anacleto o primeiro que começou a criação de ovelhas naqueles campos. Chico Vaca havia muito possuía lavouras de trigo, li-nho e arroz, razão por que era o mais rico senhor de escravos em toda a região.
VIII
Quando o Brasil entrou em guerra com o Paraguai, Vacarianos e Campolargos enrolaram os seus estandartes tribais e, à sombra da bandeira do Império, lutaram juntos contra a “indiada de Solano Lopes”. Chico Vacariano queixou-se-. “Só não me agrada é que desta vez temos castelhanos peleando de nosso lado”. Referia-se às forças da Argentina e da República Oriental do Uruguai, que haviam formado com o Brasil a Tríplice Aliança, para enfrentar o temível ditador paraguaio.
Como Anacleto e Francisco tivessem já passado da idade militar, cada um deles mandou dois de seus filhos alistarem-se como Voluntários da Pátria.
A guerra durou de 1865 a 1870. Foram tempos de tristeza, apreensões e durezas para os habitantes de Antares. Só depois que a campanha terminou é que chegou à vila a notícia de que Antônio Maria, o primogênito de Chico Va-cariano, havia tombado morto na batalha de Lomas Valen-tinas. Os dois Campolargos voltaram vivos mas estropiados. Benjamim, o mais velho, que havia perdido um olho num combate corpo a corpo, trazia as divisas de major e uma medalha militar. Seu irmão Gaudêncio tivera de amputar um braço. Antão Vacariano, que deixara a mão esquerda enterrada em solo paraguaio, voltara feito coronel e também condecorado por atos de bravura.
Foram esses três antarenses recebidos em sua terra com honras de heróis. Cada qual contava as suas estórias da campanha – algumas horripilantes, outras pitorescas e até jocosas. Num ponto, porém, Benjamim Campolargo e Antão Vacariano discordavam. É que cada um deles reclamava para si a dúbia glória de ter matado com um pontaço de lança o ditador Solano Lopes, na batalha de Cerro-Corá. A História, porém, desmentiu ambos.
IX
Graças aos bons ofícios e ao prestígio político de Ana-cleto Campolargo, amigo de figurões do governo da província, Antares foi separada de São Borja e elevada à categoria de cidade e sede de município, por Lei Provincial de 15 de maio de 1878. Ora, esse fora sempre um dos projetos mais caros a Chico Vacariano, agora já próximo dos oitenta anos. A idéia, porém, de que tudo se tinha conseguido por obra exclusiva de seu maior inimigo, deixou-o de tal maneira abalado que, uma semana antes de começarem os festejos com que se celebraria o grande evento, Chico Vaca caiu morto, fulminado pelo que um médico de São Borja diagnosticou como um “ataque de cabeça dos brabos”. Num gesto cavalheiresco, Anacleto transferiu os festejos para dezembro daquele ano, e até mandou em nome da família Cam-polargo uma coroa de flores para o defunto. Os Vacarianos recv saram a homenagem, vendo no gesto um intolerável “debique”.
Dezembro chegou, a cidade preparava-se para as grandes comemorações quando se espalhou a notícia de que o velho Campolargo, que estava na estância, fora picado por uma jararaca, tendo morrido em menos de meia hora, apesar das benzeduras de suas negras velhas e das ervas e un-güentos de seu curandeiro bugre.
Assim, quando entrou o ano de 1879, os dois grandes clãs de Antares tinham à sua frente novos chefes. Benjamim, o caolho, era o patriarca dos Campolargos e Antão, o maneta, o maioral dos Vacarianos – dois quarentões na força da vida. Ambos haviam jurado em silêncio, junto aos cadáveres paternos, continuar aquela luta de família até ao fim do Tempo.
X
Quando, anos mais tarde, a Princesa Isabel assinou o decreto em que se abolia a escravatura no Brasil, Antão Va-cariano disse a seus familiares que esse “ato de loucura” ia precipitar o fim do Império. Foi com relutância que, pelo menos formalmente, liberou seus escravos. Ora, Benjamim Campolargo, que havia alguns anos fundara o Grêmio Republicano de Antares, exultou com a notícia da Abolição, e mais tarde soltou vivas e foguetes ao saber que a República fora finalmente proclamada no Brasil.
Durante dias Antares esteve em pé de guerra. Mulheres e crianças foram proibidas de sair à rua. Na praça trocaram-se insultos e tiros. As vidraças do prédio do Grêmio Republicano foram partidas a pedradas e balaços por monarquistas enraivecidos. Um petardo explodiu contra a porta da residência dos Vacarianos. Houve cabeças quebradas e outros ferimentos corporais, leves uns, graves outros; morte, porém, nenhuma.
Fosse como fosse, o Império havia caído e os Vacaria-nos não tiveram outro remédio senão resignar-se. E, como faziam sempre que sofriam algum revés, fecharam a casa da cidade e refugiaram-se na estância, onde curtiram a sua vergonha, o seu despeito e o seu rancor. Antão verteu às escondidas algumas lágrimas quando soube que os republicanos haviam mandado o velho imperador para o exílio. “Este país está perdido!” – disse aos membros de sua família. – “O remédio agora é esperar a hora de fazer uma revolução e reconduzir o Velho ao trono.” Xisto, o primeiro Vacariano na ordem de sucessão, resmungou: “Essa república não se agüenta nas pernas. Dizem que o barulho já começou no Rio de Janeiro”.
Em 1890 a Matriz de Antares, cuja construção tinha sido iniciada havia vinte anos, foi inaugurada por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo. Benjamim Campolargo, Imperador Festeiro, mandou carnear seis de suas reses para dar churrasco ao povo, organizou uma quermesse e fez queimar fogos de artifício vindos da capital do Estado.
Os Vacarianos, que tinham prometido dar um sino de bronze para o novo templo, recusaram cumprir a promessa. Quando o vigário timidamente os interpelou, alegando que a Igreja nada tinha a ver com a política, Antão retrucou truculento: “Padre, nesse assunto nem Deus pode se dar o luxo de ser neutro!”
XI
Os historiadores de Antares, que não são muitos, até hoje temem lembrar certos “fatos desagradáveis” da crônica desse município. Num ponto, porém, parecem todos de acordo. A revolução federalista, que irrompeu em 1893, foi sem a menor dúvida o mais cruel e sangrento período da luta hereditária entre as duas famílias antarenses rivais. Antão Vacariano e seus irmãos, filhos, cunhados e sobrinhos, partidários apaixonados do famoso tribuno do Império, Gaspar da Silveira Martins, tomaram o lado dos revolucionários e, num golpe de surpresa, apossaram-se de Antares. Os Cam-polargos, porém, não tardaram a reagir e, ajudados por forças republicanas vindas de São Borja, retomaram a cidade. O combate travou-se ao anoitecer. A tropa dos Vacarianos retirou-se, com algumas baixas, e em desordem. Antão, que tinha ficado para trás comandando uma dúzia de companheiros numa operação de retaguarda, para proteger a fuga do grosso de sua força, foi feito prisioneiro. Trazido à presença de Benjamim Campolargo, trocou com este palavras e frases virulentas. O comandante vencedor, porém, recobrou a calma e disse:
– Sou um homem de bem. Respeito o direito dos prisioneiros de guerra. Vou poupar a sua vida, apesar de todas as barbaridades que você e seus bandidos praticaram enquanto estavam de donos da cidade.
Antão Vacariano encarou firme o adversário e replicou :
– Não peço nem aceito favor de nenhum caolho filho da puta! Me soltem, me devolvam a minha adaga e venham de um a um, que eu mostro quem é macho e quem não é.
Benjamim sacudiu a cabeça e soltou a sua risadinha gutural.
– Não sou prevalecido. Não brigo com maneta. Como única resposta Antão escarrou-lhe na cara. E
neste ponto as versões divergem. Afirmam alguns cronistas que, cego de ódio, Benjamim tirou sua faca da bainha, precipitou-se sobre o inimigo e sangrou-o ali mesmo. Outros dizem que mandou um de seus homens degolar o prisioneiro mais tarde, a frio. A verdade é que Antão Vacariano foi assassinado naquela noite, e seu corpo, envolto num lençol, enterrado no cemitério local, numa sepultura rasa e sem marca.
XII
A vingança dos Vacarianos não tardou. Meses depois, as forças federalistas, comandadas por Xisto, retomaram Antares e conseguiram prender Terézio, o mais novo dos Campolargos.
Xisto mandou reunir na praça os homens da cidade e ordenou que mulheres e crianças ficassem fechadas em suas casas. De mãos amarradas às costas, Terézio foi trazido à sua presença, em meio de grave silêncio. Ao redor dos dois adversários agrupavam-se aqueles guerreiros barbudos, sujos, suados e alguns até com a pele e as vestes ensangüentadas do último combate.
– É do conhecimento geral – bradou Xisto Vacariano – que os Campolargos assassinaram covardemente o meu mano Antão, que não teve nem o consolo de morrer como homem, peleando de arma na mão. Foi miseravelmente sangrado como um boi no matadouro. Pois agora chegou a nossa hora. Este Campolargo vai pagar pelos crimes do seu irmão e de todos os cachorros sarnentos de sua raça maldita!
Terézio estava livido. Mal moveu os lábios quando disse:
– Guerra é guerra. Não peço clemência.
– Não pedes nem te dou, corno filho duma grã-puta! Seguiu-se uma cena digna do pincel e da imaginação
dum Hieronymus Bosch. Xisto mandou amarrar o prisioneiro pelas pernas e pendurá-lo no galho duma árvore, com a cabeça a poucos centímetros do solo. Depois acercou-se de sua vítima, empunhando um grande funil de lata, cujo longo bico lhe enfiou às cegas no ânus, profundamente. Com a cara contraída de dor e vergonha, Terézio cerrou os dentes mas não deixou escapar o menor gemido.
Nenhum daqueles homens parecia saber ao certo o que Xisto pretendia fazer. Um deles cochichou ao ouvido dum companheiro: “Acho que o coronel vai dar uma lavagem de Pimenta e mostarda nesse ‘pica-pau’”.
Os planos de Xisto, porém, eram mais terríveis. Todos compreenderam o que ele ia fazer quando gritou: “Tragam o tempero pra salada!” e dois de seus homens, vindos do quintal do casarão dos Vacarianos, aproximaram-se, conduzindo com todo o cuidado, para não se queimarem, uma grande chaleira de ferro cheia de azeite em ebulição.
O céu estava azul e limpo. Uma brisa de primavera boba nas folhas das árvores e nas rosas de todo o ano que cobriam a cerca, ao lado da residência, agora deserta, dos Campolargos. Havia um grande silêncio na praça ensolarada.
Xisto murmurou: “Sabes o que vou te fazer, sacri-panta? Te incendiar as tripas”. A uma ordem sua, os dois homens começaram a despejar lentamente no funil todo o conteúdo da chaleira. Terézio Campolargo soltou um urro e começou a estrebuchar.
Apenas um homem, de todos quantos assistiam à cena, soltou uma risada. Os outros se mantiveram num silêncio taciturno. Romualdo, o mais moço dos Vacarianos, acercou-se do chefe da família e protestou: “Mas isso é uma barbaridade, mano!” Sem desviar o olhar da vítima, que continuava a berrar e espernear como um porco que está sendo sangrado, replicou: “Precisas aprender a lidar com o inimigo, menino. Se a coisa te faz mal ao estômago, toma um chàzinho de erva-doce e vai pra casa te deitar”.
A agonia de Terézio foi de curta duração. Quando suas convulsões cessaram, Xisto olhou para o céu, aliviado. Vieram contar-lhe então que o vigário, que estava na igreja, rezando, lhe pedia o corpo do jovem Campolargo para a encomendação e o sepultamento. Xisto sacudiu negativamente a cabeça. “Encomendar pra quê? Se esse ‘pica-pau’ tinha mesmo alma, a esta hora ela já entrou nos quintos do inferno.” Disse isto, voltou as costas para o cadáver e tornou à sua casa, onde o esperava um assado de paleta de ovelha, que ele comeu com a tranqüilidade dum justo.
XIII
Seis meses mais tarde os Campolargos retomaram An-tares num ataque de surpresa, à noite. Os Vacarianos retiraram-se com a sua tropa, deixando para trás, mortos ou feridos, vários companheiros. E quando, horas depois do combate, Xisto conseguiu reunir os seus homens no topo duma coxilha e começou a chamar pelos irmãos, deu pela falta de Romualdo e ficou frio. “Quem é que viu o Romualdo por último?” Ninguém se lembrava. Xisto deu-o por perdido, encolheu os ombros e pensou: na guerra como na guerra...
Mais tarde ficou-se sabendo que Romualdo na hora do inesperado ataque dos “pica-paus” estava na cama com uma china e, não tendo tempo de fugir, fora capturado.
Benjamim Campolargo esfregou as mãos num contentamento frenético. Tinha chegado a desejada hora de vingar a morte de Terézio.
No dia seguinte, por volta das oito da manhã (era já outono, dia frio e triste, céu cor de pêlo de capivara) Benjamim tratou de saber do vigário em que árvore seu irmão havia sido torturado. O padre deu-lhe a informação, mas disse: “Por tudo quanto existe de mais sagrado na vida, pelo amor de sua mãe e de seu falecido pai, eu lhe suplico que não sacrifique esse moço. Não foi ele quem matou o Terézio”.
Benjamim sorriu: “Padre” – disse ele com brandura – “eu lhe juro por Deus Nosso Senhor que não vou matar o Romualdo”. O sacerdote arregalou os olhos, surpreso. “Jura mesmo?” O outro ergueu a voz: “Juro! Aqui na frente dos meus companheiros! Pela honra da minha mãe, da minha mulher e das minhas irmãs, juro que vou soltar o moço, e vivo!” O vigário ficou pensativo, incrédulo ainda, mas nada disse. Lavou simbolicamente as mãos e voltou para a igreja.
Romualdo Vacariano foi trazido à presença de Benjamim Campolargo, que exclamou: “Tirem toda a roupa desse sujeitinho!” Três de seus homens obedeceram à ordem. “As botas também... Bom. Agora amarrem ele na mesma árvore onde penduraram o meu irmão. Assim não! Com a barriga contra o tronco, as pernas abertas... Isso!”
Um círculo duns cento e poucos homens formava uma espécie de muro ao redor da árvore. Como no dia da tortura e morte de Terézio, todas as mulheres e crianças tinham sido fechadas nas suas casas. Os companheiros entreolha-vam-se, sem saber ao certo o que seu chefe ia fazer. Benjamim chamou um dos seus companheiros, um negro alto e corpulento, e lhe disse:
– Elesbão, você é quem vai fazer o serviço no moço. O preto levou a mão à faca. Era um exímio degolador.
Benjamim sacudiu negativamente a cabeça.
– Não. O instrumento não é esse, mas o que você tem entre as pernas.
Elesbão não entendeu imediatamente o que o seu comandante queria. Quando compreendeu, murmurou, constrangido :
– Ora, coronel, eu nunca fiz dessas coisas.
– Mas vai fazet agora. E uma ordem.
– Por que logo eu?
– Porque sim.
– Aqui na frente de todo o mundo?
– É exatamente isso que eu quero: testemunhas. Elesbão olhou para o homem nu e depois para o seu comandante :
– Me prenda, coronel, me rebaixe de posto, mas uma coisa dessas eu não faço. Degolar é diferente...
Num átimo Benjamim examinou mentalmente a difícil conjuntura. Por um lado não podia ser desautorizado na frente dos seus próprios comandados; por outro, não queria castigar e talvez perder um companheiro do valor do Elesbão. Quem’ salvou a situação foi um caboclo parrudo e mal-encarado, o Polidoro, contumaz barranqueador de éguas, que se apresentou voluntário para executar a tarefa.
– Está bem – disse o chefe Campolargo. – Está na mesa. Sirva-se.
E o caboclo violentou Romualdo. Uns três ou quatro homens soltaram risadinhas. Outros, porém – a maioria – retiraram-se do local para não assistirem à cena degradante. Um capitão bigodudo chegou a gritar: “Isso não se faz a um macho, coronel! Por que não mata logo o miserável?” Benjamim, que saboreava o espetáculo, não deu a menor atenção ao protesto.
Consumado o ato, gritou: “Agora soltem a moça!” Dois soldados desamarraram Romualdo, que deu alguns passos, cambaleante, como se estivesse bêbedo, a cara aparvalhada. De repente soltou um urro, como um animal ferido de morte e, nu como estava, saiu a correr na direção do rio, atirou-se no chão, no alto da barranca, e rolou declive abaixo, até cair nágua. Pôs-se a nadar, e, a uns trinta metros da margem, deixou-se afundar. Seu corpo jamais foi encontrado.
Depois desses atos de violência e perversidade ninguém podia sequer imaginar que fosse um dia possível para Va-carianos e Campolargos voltarem a viver na mesma cidade. Terminada a revolução, com a vitória dos republicanos, Xisto Vacariano emigrou com todo o seu clã para a Argentina, onde permaneceu por dois anos. Durante essa longa ausência, um amigo seu, homem de bem e neutro em política, tomou conta da estância e dos outros negócios dos Vacarianos e, com o auxílio de amigos influentes, conseguiu evitar que os Campolargos se apossassem discriciona-riamente dos bens móveis, imóveis e semoventes de seus velhos adversários.
XIV
Em 1898 Xisto Vacariano’tomou um vapor em Buenos Aires e viajou até ao Rio de Janeiro onde – conta-se – se avistou com o senador Pinheiro Machado, figura prestigiosa da política nacional. Eram velhos conhecidos. Havia alguns anos, o prócer republicano hospedara-se na estância dos vacarianos e, à hora do jantar – conversa vai, conversa vem —, acabaram descobrindo que Pinheiro Machado, que ?e alistara com apenas dezesseis anos como Voluntário da ratria, durante a Guerra do Paraguai, havia servido no regimento de que Xisto Vacariano era oficial. Comemoraram a descoberta bebendo vinho do Porto e Xisto deu de presente ao futuro senador da República um de seus cavalos de purosangue e um par de estribos de prata feitos na Bélgica.
Xisto valia-se agora desta amizade para tentar resolver a sua situação e a de toda a sua família. Pinheiro Machado escutou-o com atenção e prometeu “amansar” os Campolar-gos, pelos quais – confessou – não morria de amores, apesar de eles serem seus correligionários. Mandou uma carta a Júlio de Castilhos – então Presidente do Estado – explicando-lhe a situação e pedindo a sua intercessão no assunto. Castilhos escreveu a Benjamim Campolargo reco-mendando-lhe fizesse “vista grossa” ao reaparecimento dos seus inimigos Vacarianos em Antares.
Benjamim levou alguns dias para “digerir” essa carta. Respondeu, porém, a ela declarando que faria como seu “prezado chefe e amigo” pedia. Tinha antes escrito ordenava mas passou a carta a limpo para trocar o verbo. Assim os Vacarianos foram voltando pouco a pouco para Antares. com todos os membros de suas famílias.
Naquelas primeiras semanas após a volta dos proscritos (termo usado por um jornalista republicano local) não só a população de Antares como a própria cidade – casas, muros, calçadas, plantas, pedras – pareciam viver em estado de extrema tensão, na expectativa do primeiro encontro físico entre um Campolargo e um Vacariano.
Xisto e Benjamim defrontaram-se uma tarde à frente do Grêmio Republicano. O primeiro pigarreou forte. O outro fuzilou o inimigo com um olhar de seu único olho válido. Nada disseram nem fizeram. Cada qual seguiu seu caminho e Antares e os antarenses respiraram desoprimidos.
XV
Antares celebrou com grandes festas a entrada do século xx. Armou-se no centro da praça um carrossel, de propriedade dum espanhol residente em Uruguaiana. À tarde houve Cavalhadas e à noite quermesse. Acenderam-se fogueiras onde se assaram batatas-doces e lingüiças. Num grande tablado erguido à frente da Matriz, houve danças a noite inteira, ao som de músicas tocadas pelos melhores san-foneiros da cidade e redondezas. À meia-noite em ponto o sino da igreja rompeu a badalar festivamente, homens davam tiros de pistola para o ar, foguetes de lágrimas espocavam nas alturas, derramando sobre os telhados e o rio chuveiros de estrelas multicores. Homens, mulheres e crianças abraçavam-se gritando, chorando e rindo. Benjamim Campolar go, que assistia à festa da sacada de sua residência, desce« para a praça e confraternizou com o povo. Sentou-se con. a esposa à cabeceira duma mesa de cinqüenta metros de comprimento, ali ao ar livre, e deu início à grande ceia – carne de gado, ovelha e porco, galinhas e patos assados, pratarraços de arroz de carreteiro e, no firn, sobremesas feitas pelas melhores doceiras da cidade. E, a todas essas, dê-lhe vinho, dê-lhe cachaça, dê-lhe cerveja...
Os Vacarianos, esses celebraram o grande acontecimento em família, sem se misturarem com “a canalha republicana”.
A pessoa escolhida pelo intendente para falar em nome da municipalidade – um professor – saudou o século xx como a era da Luz e do Progresso, a qual, “mercê das novas invenções e descobertas do saber humano, haverá de proporcionar aos povos de todas as nações do Universo uma vida de conforto, fartara e harmonia, como nunca na História da Humanidade”.
Já quase ao clarear do dia, intoxicados de bebidas alcoólicas, dois machos do clã dos Campolargos – primos-irmãos ainda na casa dos vinte – estranharam-se, trocaram primeiro palavrões, depois bofetadas e finalmente facadas. Um deles recebeu um pontaço de faca no ventre (superficial) e o outro deixou no chão da praça um naco de seu braço esquerdo. O velho Benjamim teve de intervir pessoalmente, ajudado por dois irmãos, para evitar que o conflito se generalizasse num “pega pra capar” desastroso.
Ao saber do incidente, no dia seguinte, Xisto Vacaria-no sorriu e disse: “Começou bem pra nós esse tal de século xx”.
XVI
A esta altura da presente narrativa é natural que o leitor esteja inclinado a perguntar se não existiam em Antares homens de bem e de paz, com comportamento e sentimentos cristãos. A pergunta é pertinente e a resposta, sem a menor dúvida, afirmativa. Havia, sim, e muitos. Desgraçadamente seus ditos, feitos e gestos não foram recolhidos pela história oficial. Apenas uns poucos deles incorporaram-se à tradição oral da cidade e do municipio-, os restantes perderam-se para sempre no olvido.
Os livros escolares, cujo objetivo é ensinar-nos a história da nossa terra e do nosso povo, são em geral escritos num espírito maniqueísta, seguindo as clássicas antíteses – os bons e os maus, os heróis e os covardes, os santos e os bandidos.
Via de regra, não se empregam nesses compêndios as cores intermediárias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truismo de que a História não pode ser escrita apenas em preto e branco.
Por motivos puramente de economia de espaço – uma vez que o objetivo desta narrativa é tecer um sumário pano de fundo histórico contra o qual apresentar oportunamente os macabros eventos daquela sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963 – estas páginas lamentavelmente têm seguido o espírito dos citados livros escolares, focando de preferência as duas grandes oligarquias que em Antares, durante cerca de setenta anos, disputaram o predomínio político, social e econômico. Ficaram assim na penumbra do segundo, do terceiro e do último plano todos aqueles que – para usar duma expressão de Spengler – não “fazem” mas “sofrem” a História, a saber: estancieiros menores, agricultores de minifúndios, membros das profissões liberais e do magistério e ministério públicos, funcionários do governo, comerciantes, artesãos e por fim essa massamorda humana composta de párias – brancos, caboclos, mulatos, pretos, curibocas, mamelucos – gente sem profissão certa, changadores, índios vagos, mendigos, “gentinha” molambenta e descalça, que vivia num plano mais vegetal ou animal do que humano, e cuja situação era em geral aceita pelos privilegiados como parte duma ordem natural, dum ato divino irrevogável.
XVII
Tinha razão o editorialista do semanário A Verdade (fundado em 1902) quando escreveu que o Progresso se aproximava de Antares com botas de sete léguas. Nos tempos em que a localidade era ainda conhecida pelo nome de Povinho da Caveira, Chico Vacariano, seu fundador, sempre que tinha de mandar um recado, verbal ou escrito, a uma pessoa que morasse longe, valia-se dum portador, dum “chas-que”, dum “próprio”. Em fins do século xix, Antares gozava já dos benefícios e facilidades do telégrafo, isso para não falar no serviço postal.
Estradas de ferro ligavam muitas cidades do Rio Grande do Sul umas às outras, e o apito de suas locomotivas assustava os bichos do campo e do mato, ao mesmo tempo que a fumaça de suas chaminés sujava aqueles ares puros. Não parecia otimismo exagerado esperar-se que dentro duns dez anos, no máximo, seus trilhos fossem estendidos até a Antares. Agora, na primeira década do novo século, surgia o telefone, que Xisto Vacariano afirmava ter sido inventado por Dom Pedro II, com a colaboração dum mecânico norte-americano, seu amigo particular. O primeiro a instalar na sua casa um desses aparelhos foi Benjamim Campolargo, que corria sempre na dianteira de seu rival, em matéria de empreendimentos progressistas.
Os “próprios” e os “chasques” continuavam ativos e uteis. As mulheres, as crianças e os velhos usavam como veículos de transporte a aranha, a diligência e outras carruagens de tração animal. Carretas ainda rechinavam, ronceiras puxadas por bois lerdos, através daquelas campinas. Os antarenses em sua maioria achavam – e nisso não eram diferentes de outros campeiros do Rio Grande do Sul – que o único meio de locomoção digno dum homem macho continuava a ser o cavalo. Em certos casos tinha-se a impressão de que esse animal era um prolongamento do corpo do cavaleiro, assim como a pistola ou o revólver faziam já parte da sua anatomia.
Quando se instalou em Antares a primeira usina elétrica, Xisto Vacariano, sentado à cabeceira de sua mesa à hora do jantar, disse aos filhos: “No Povinho, o avô de vocês vivia muito bem se alumiando com lâmpada de óleo de peixe e vela de sebo. A máquina mais complicada que ele conhecia era o monjolo. Pra mim, lampião de querosene ou acetilene já é luxo demais. Ninguém me convence de mandar botar na minha casa a tal de luz elétrica. Dizem que esse negócio dá choque, pode até matar uma pessoa”.
Quando, no inverno de 1912, o intendente mandou instalar luz elétrica nas ruas da cidade, o velho Eusébio Reis, que durante mais de vinte e cinco anos exercera sozinho as funções de acendedor de lampiões, caiu numa tão grande depressão nervosa, que numa madrugada de julho enforcou-se num dos postes da iluminação moderna, e seu corpo amanheceu hirto, coberto de geada, balançando-se dum lado para outro, sacudido pelo vento gelado que soprava das bandas dos Andes.
Para surpresa geral, foi um Vacariano quem, em 1911, trouxe para Antares o primeiro automóvel, um Oldsmobile, que mandara vir de Buenos Aires. Depois de aprender a dirigir o veículo, um dos seus maiores prazeres era passear nele, de tolda arriada, pela cidade, apertando provocadora-mente na buzina de fonfom sempre que passava pela frente do solar dos Campolargos. Estes não tardaram em mandar buscar da Alemanha um automóvel Benz.
XVIII
Como o Dr. Júlio de Castilhos estivesse seriamente enfermo, o bacharel em Direito Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, que havia sido seu chefe de polícia, sucedera-o em 1898 como Presidente do Estado, bem como no de chefe do Partido Republicano gaúcho. Castilhos faleceu em 1903, durante a operação de garganta a que fora submetido. Benjamim Campolargo, acompanhado de dois de seus filhos, embarcou às pressas para Porto Alegre, a fim de assistir às exéquias de seu chefe e amigo. Chegou tarde, mas aproveitou a oportunidade para visitar o Dr. Borges de Medeiros, que ainda não conhecia pessoalmente. Achou-o seco, formal mas digno. Ouviu, de várias pessoas importantes da capital, os maiores elogios ao caráter do presidente. Ninguém mais probo, ninguém mais justo, ninguém mais sábio – dizia-se. “Um verdadeiro varão de Plutarco” – afirmavam os edítorialístas de A Federação, o órgão oficial do Partido Republicano Rio-Grandense. Benjamim Campolargo, graças talvez a uma autovacina, voltou para Antares incontami-nado pelas virtudes morais de seu chefe. Continuou a perseguir a oposição, a coagir juizes, promotores e jurados. Governava despoticamente o município de Antares, onde os maragatos eram minoria. Tornou-se assim, como tantos outros chefes políticos municipais do Rio Grande do Sul, uma espécie de “príncipe eleitor”. Reeleito em 1903, 1913 e 1918, Borges de Medeiros exerceu durante vinte anos a sua “ditadura científica” de inspiração positivista, fechado no palácio do governo e quase divinizado como um Lama do Tibete.
Sem recursos humanos para enfrentar seus inimigos crônicos, os Vacarianos agora competiam com eles em outros terrenos que não o da política. Todos os fins de ano, quando se tratava de eleger uma nova diretoria para o Clube Comercial, a mais fina sociedade local, havia sempre uma chapa apresentada pelos Campolargos, a oficial, e outra pelos Vacarianos. O pleito era precedido de propaganda, cabala, pressões de toda sorte, e até de suborno. No dia da eleição os eleitores compareciam à sede do clube armados de punhais e revólveres, e era raro o ano em que não houvesse bate-boca, troca de insultos, de bofetadas e até de tiros.
Desde 1915 o futebol – “o salutar esporte bretão”, segundo um redator de A Verdade – tornara-se popular em Antares. Os Campolargos haviam fundado o Esportivo Mis-sioneiro e os Vacarianos favoreciam o Fronteira F. C. Não se tem notícia duma partida entre esses dois adversários que não haja terminado sem luta corporal entre seus torcedores, isso para não falar nas trocas de caneladas e pe-chadas entre os jogadores, em disputa da bola. Conta-se a seguinte estória, que parece ter sido já incorporada ao folclore futebolístico gaúcho. O Fronteira e o Missioneiro defrontavam-se numa partida decisiva de campeonato, o jogo aproximava-se do final e nenhuma das duas esquadras conseguira ainda marcar um ponto sequer. No último minuto do jogo, Pollito, atacante do Missioneiro – um argentino “contrabandeado” do outro lado do rio, a peso de ouro – driblou quase toda a defesa do Fronteira e ia na certa marcar um tento quando um Vacariano bombachudo que estava ali por perto saltou rápido para dentro do gramado, rebolou no ar o seu laço e pealou o castelhano, que caiu de costas, batendo com a nuca no chão. O goleiro do Fronteira saltou para agarrar a bola, mas um dos Campolargos alvejou-a com um tiro de revólver, e o balão se desinflou com um longo suspiro nas mãos do keeper, que soltou um berro de horror. O público invadiu o campo e então começou uma verdadeira batalha campal que durou mais de meia hora, pois soldados da polícia municipal, chamados para impor a paz, acabaram tomando partido e participando do entrevero.
XIX
A Primeira Guerra Mundial chegou a Antares principalmente através das páginas róseas do Correio do Povo. Pela primeira vez em mais de cinqüenta anos Campolargos e Vacarianos encontravam-se por assim dizer do mesmo lado, na mesma trincheira, alvejando simbolicamente um inimigo comum, os boches. Xisto e Benjamim admiravam a França, detestavam a Alemanha e consideravam o Kaiser um bandido desalmado, um bárbaro. Papagaiando frases de jornais e folhetos de propaganda, ambos afirmavam que os
Aliados deviam a qualquer preço “salvar a Civilização das garras sanguinárias dos hunos”.
A década de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto de ordem material como intelectual. Durante esse pós-guerra, o ritmo de construções de casas particulares acelerou-se. Os Vacarianos reformaram o seu casarão – “uma simples meia-sola”, disseram os seus desafetos. Os Campolargos construíram um sólido palacete de dois andares.
Em 1924 uma firma norte-americana instalou um frigorífico nos arredores da cidade – o que levou o editorialista do diário local a afirmar que Antares, até então um município exclusivamente agropastoril, começava auspiciosamente a industrializar-se.
O telégrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rádio – contribuíram decisivamente para aproximar o mundo de Antares ou vice-versa. Forasteiros também muito faziam pelo progresso social e cultural da cidade: magistrados, promotores públicos, funcionários do governo estadual e federal, caixeiros-viajantes... Era, porém, de lamentar que Antares não possuísse, como São Borja, uma guarnição militar federal, um batalhão que fosse.
Em 1925 os Vacarianos haviam comprado o primeiro sedan Chrysler que jamais sentou suas rodas nas ruas de Antares. Numa espécie de esperada represália, os Campolargos não tardaram a adquirir na Argentina um Studeba-ker preto que, na opinião de seus rivais, tinha o aspecto dum carro fúnebre.
Foi também nesse ano de 1925 que a polícia descobriu e prendeu o primeiro comunista da história de Antares, um certo Mário Pinho, um tipògrafo, natural de Santiago do Boqueirão, homem pálido e triste que se gabava de ter lido de fio a pavio, em tradução espanhola, O Capital de Karl Marx. O agente do “olho de Moscou” passou um mês na cadeia e, depois de solto, mudou-se para Santa Maria.
Nos bailes do Clube Comercial moças e rapazes das Melhores famílias locais dançavam o charleston, sob o olhar crítico das matronas. Num sarau de arte, no solar dos Cam-polargos, um forasteiro recitou versos modernos – que ninguém entendeu – de Oswald e Mário de Andrade. Antares, pois, atualizava-se, integrando-se na Era do jazz.
XX
Em 1923 os partidários do Dr. Assis Brasil – aliança de maragatos com dissidentes do Partido Republicano – haviam feito a sua revolução, protestando contra mais uma reeleição do Dr. Borges de Medeiros, confirmada pela Assembléia estadual, mas considerada pela oposição uma farsa fraudulenta, pois o candidato oficial republicano – alegavam seus inimigos – não obtivera os três quartos da votação total exigidos nesse caso pela Constituição.
Xisto V acariano a princípio pensara em ficar sossegado em sua estância (não tinha muita simpatia pessoal por Assis Brasil), mas como lhe tivesse chegado aos ouvidos o rumor de que Benjamim Campolargo ia mandar prender todos os Vacarianos machos, decidiu “ir para a coxílha” com os filhos, irmãos, genros, netos, sobrinhos, amigos, peões e demais cumpinchas: cento e vinte homens ao todo. Embora já na quadra dos oitenta, Xisto mantinha-se ainda ereto em cima do cavalo, e sentia-se apto para enfrentar mais uma campanha em sua vida. Assim, os Vacarianos se juntaram às forças de Honório Lemes. Evidenciara-se desde o primeiro momento da revolução que o número de combatentes republicanos era consideravelmente maior e mais bem armado que o dos “bandoleiros”, pois o governo estadual, além de seus partidários civis que formavam as tropas irregulares, contava também com o apoio da sua Brigada Militar, força bem armada e aguerrida.
O velho Vacariano explicava aos seus comandados: “O Gen. Honório tem razão. O plano não é dar combate de frente aos ‘chimangos’, mas negacear, atacar de surpresa, fugir na hora do aperto e voltar depois quando menos nos esperarem. O nosso chefe conhece a Serra do Caverà como a palma de suas mãos. O inimigo não ousa atacar o homem no chão dele. Assim, vamos embromando esses borgistas para provocar uma intervenção federal. O Presidente da República não gosta do Borjoca. Está louco pra meter sua cucharra na nossa panela”.
Não se teve notícia de nenhum combate, nem mesmo duma escaramuça passageira, entre os guerreiros dos Vacarianos e os dos Campolargos.
A intervenção federal foi finalmente feita no Rio Grande do Sul e dela resultou um tratado de paz. Benjamim Campolargo cantou vitória, mas Xisto Vacariano disse: “Bobagem desse caolho caduco! Quem ganhou a parada fomos nós. Com meia dúzia de espingardas descalibradas, revólveres enferrujados e lanças de guajuvira, os assisistas conseguiram o que queriam: esse tratado que reforma a Constituição do Estado, que os castilhistas consideravam intocável, e proíbe a reeleição do Chimango!”
Copyright © 1988 by Herdeiros de Erico Verissimo
Ilustração de capa: Iberê Camargo (detalhe)
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Brasil
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RR Donnelley & Sons Company - EUA
CIP-Brasil. Catalogaçào-na-fonte – Câmara Brasileira do livro, SP
Veríssimo, Erico, 1905-1975.
Incidente em Antares / Erico Verissimo. – 45ª ed. - São Paulo: Globo, 1995
ISBN 85-250-0590-8 1. Romance brasileiro I. Título 88-05189 CDD-869935
Índices para catalogo sistemático:
1. Romances: Século 20: Literatura brasileira 869-935
2. Século 20: Romances: Literatura brasileira 869.935
Neste romance as personagens e localidades imaginárias aparecem disfarçadas sob nomes fictícios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, são designados pelos seus nomes verdadeiros.
(Nota do Autor)
primeira parte
ANTARES
I
Afirmam os entendidos que os ossos fósseis recentemente encontrados numa escavação feita em terras do município de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituições gráficas da Paleontologia, era uma espécie de tatu gigante dotado duma carapaça inteiriça e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidável rabo à feição de tacape ricado de espigões pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto é, há cerca de um milhão de anos, não só gliptodontes como também megatérios habitavam essa região diabásica da América do Sul, onde – só Deus sabe ao certo quando – veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que época da Era Cenozóica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espécimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que até hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados é o fato de car-tógrafos, não só estrangeiros como também nacionais, n|o mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se São Borja fosse a única localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada têm servido os memoriais assinados pelo Prefeito Municipal, pelos membros da Câmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, protestando contra a acintosa omissão. O Pe. Gerôncio Albuquerque, quando ainda vigário da Matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vão, idêntica reclamação ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente.
No entanto a verdade clara e pura é que, a despeito da má vontade ou da ignorância dos fazedores de cartas geográficas, a cidade de Antares, sede do município do mesmo nome, lá está, visível e concreta, à margem esquerda do grande rio.
O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia – fama um tanto ambígua e efêmera, é verdade – não só no Estado do Rio Grande do Sul como também no resto do Brasil e mesmo através de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, não sensibilizou até agora geógrafos e cartógrafos.
Tão insólitos, lúridos e tétricos – e estes adjetivos foram catados no artigo alusivo àquele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu diário A Verdade, porém jamais publicado, por motivos que oportunamente serão revelados – tão fantásticos foram esses acontecimentos, que o Pe. Gerôncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o começo do Juízo Final. Nesse momento de susto e angústia coletiva, um cético gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: “A troco de quê Deus havia de começar o Juízo Final logo neste cafundó onde Judas perdeu as botas?”
Bem, mas não convém antecipar fatos nem ditos. Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idéia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaxia, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana.
II
O mais antigo documento escrito que se conhece referente ao lugar onde mais tarde viria a ser fundada essa comunidade da região missioneira do Rio Grande do Sul, encontra-se no livro do naturalista francês Gaston Gontran d’Auberville, intitulado Voyage Pittoresque au Sud du Brésil (1830-1831). Escreveu o ilustre cientista em seu diário de viagem :
24 de abril. – Cruzamos esta manhã o Rio Uruguai, numa balsa, e entramos em território do Brasil. Estes campos verdes, duma beleza idílica, lembram os da nossa Provence. Aqui as pastagens são boas e o gado bovino, abundante. Os primeiros homens que encontramos, tanto os brancos como os índios, me olham com uma curiosidade meio desconfiada, que acho justificável, pois devem estranhar a minha indumentária, o meu aspecto físico e principalmente a minha bagagem: as gaiolas em que trago os pássaros vivos que apanhei no Paraguai e na Argentina, e os sacos e caixas cheios das plantas e pedras que venho colecionando desde o momento em que pisei terras do Novo Mundo.
Cerca das dez horas da manhã, chegamos a um lugarejo pertencente à comarca de São Borja e conhecido como Povinho da Caveira, formado por uma escassa dúzia de ranchos pobres, perto da barranca do rio. A pouca distância deles, situa-se a casa do proprietário destas terras, que me recebeu com certa cortesia. E um homem ainda jovem, de compleição robusta, cabelos e barbas castanhos e pele clara. Tem um ar autoritário, costuma falar muito alto, parece habituado a dar ordens e a ser obedecido. Chama-se Francisco Vacariano, nome provavelmente derivado da palavra “vaca” e que não me parece legítimo, mas adotado. A casa da estância de gado do Sr. Vacariano é apenas um rancho maior que os outros da povoação. Comunico-me com esse senhor no meu -precário espanhol, e ele me responde na mesma língua mas usando, uma vez que outra, palavras portuguesas.
Almoçamos ao meio-dia e o estancieiro nos serviu, numa grande marmita de ferro, pedaços de carne seca (aqui chamada “charque”) com farinha de mandioca, tudo misturado com gordura animal. O Sr. Vacariano imaginava que eu era uma espécie de mascate. Ficou desapontado quando verificou que eu não trazia tabaco, açúcar nem sal, gêneros de que carece no momento. Expliquei-lhe que sou um cientista e o meu hospedeiro pareceu não me dar crédito, pois acha impossível que um homem empreenda uma tão longa e penosa viagem apenas para apanhar bichos e juntar plantas e pedras.
Percebi que o Sr. Vacariano não confia nos “homens do outro lado do rio” nem parece gostar deles. Tal coisa não é para estranhar-se, se levarmos em conta que recentemente o Brasil esteve envolvido numa guerra com a Argentina pela posse da chamada Banda Oriental.
O meu guia, que é um homem loquaz e grande conhecedor desta região e desta gente, duma margem e outra do rio, assegurou-me que o meu hospedeiro não só herdou as sesmarias que a Coroa de Portugal concedeu ao seu avô, no início do povoamento desta província, como também se apossou pela força de algumas léguas de campo -pertencentes a outros estancieiros vizinhos, que pôs em fuga, sob ameaças. Contou-me ainda o dito guia que boa parte do rebanho de gado que o Sr. Vacariano hoje possui é formado de descendentes dos bois e vacas que o seu pai roubou na Argentina, aproveitando a confusão de tempos de desordens e lutas intestinos no país vizinho. O guia me pediu discrição absoluta, quanto a essas informações, pois, ao que diz, o Sr. Vacariano é um homem violento e vingativo.
Fui informado de que os índios deste pouoado pensam que sou um feiticeiro, e que o capataz do meu hospedeiro está convencido de que não passo de um bispo disfarçado que aqui veio, a mandado do Papa, para estudar a possibilidade do restabelecimento das reduções jesuíticas que outro-ra floresceram nesta região. O que, porém, mais me perturbou foram as palavras que o próprio Sr. Vacariano pronunciou, ao fim de nosso almoço. Reproduzo-as aqui, verbatim: “Sabe o que fiz com o último lotador de impostos que apareceu nestas terras’! Mandei matá-lo e atirei seu corpo no rio”. Felizmente, depois dessa ameaça soltou uma risada, deu-me uma palmada cordial nas costas e declarou que era um homem de boa-fé e portanto acreditava em que eu era mesmo um colecionador de plantas e passarinhos, pois “cada louco tem a sua mania”.
Passei a tarde herborizando nos arredores do povoado. A hora de recolher, o Sr. Vacariano prometeu proporcionar-me, ao amanhecer do dia seguinte, “um espetáculo inesquecível”.
Passei a noite quase sem dormir, por causa dos mosquitos.
III
25 de abril. – Antes do nascer do sol montamos a cavalo, meu hospedeiro e eu, e nos dirigimos para uma várzea, a uma escassa légua de sua estância, e apeamos perto dum bosque, onde ficamos à espera do clarear do dia. Quando o sol apareceu, vi diante de mim uma planície pantanosa cheia duma grande variedade de aves aquáticas. Mal consegui esconder o meu pasmo e o meu júbilo, pois aquilo se me afigurava o sonho dourado dum naturalista. No primeiro relance, pude perceber ali graciosas garças, íbis, grous, galinhas-d’agua, patos, narcejas, alguns exemplares dum pássaro que, à distância, me pareceu do gênero Francoli-nus, mas dum tamanho acima do comum. Tive im.pe.tos de correr na direção daquele congresso de aves e apanhar as que pudesse, mas o Sr. Vacariano me segurou o braço, di-zendo-me que esperasse, pois havia “algo e spedar que me queria mostrar. Pouco depois apontou para uma árvore des-folhada, a uns vinte metros de onde estávamos, e eu vi, em-poleirada num dos seus galhos, uma garça dum alvor de neve, de linhas elegantes, e que em dado momento voltou a cabeça na direção do sol nascente, perfilou-se, esticou o longo pescoço e soltou um assobio prolongado, duma suavidade indescritível, a um tempo bucólico e triste, lembrando o pífaro dum pastor. Era como se a ave estivesse cantando um hino ao dia nascente. Numa espécie de transe, eu pensava nas belezas que a imaginação criadora e dadivosa de Deus espalhou pelo universo, quando o Sr. Vacariano me disse que os índios chamavam àquela garça “flauta do sol”. (Tratava-se evidentemente de um exemplar da Ardea cyanoce-phala.)
Voltamos para a estância e durante o resto do dia colhi exemplares de gramináceas e solanáceas e outras plantas que encontrei naqueles prados paradisíacos. O meu hospedeiro pareceu ter simpatizado comigo, pois quando lhe pedi emprestadas duas juntas de bois, para substituir os animais cansados que haviam puxado nossa carreta até ali, ele acedeu prontamente ao vieu pedido.
A noite, depois do jantar, saímos ambos a caminhar nos arredores da casa da estância. Como para lhe pagar pelo formoso espetáculo da manhã, localizei no céu a constelação de Escorpião, que no hemisfério austral começa a aparecer no horizonte, a leste, depois de 15 de abril, mostrei ao Sr. Vacariano a bela estrela chamada Antares, e disse-lhe que, embora não parecesse, ela era maior do que o Sol. O meu hospedeiro olhou para a estrela em silêncio e mais tarde, quando chegamos a casa, murmurou: “Antares.... Bonito nome. Para mim quer dizer ‘lugar onde existem muitas antas’, bem como nestas terras perto do rio”. Pediu-me que escrevesse essa palavra, o que fiz, num pedacinho de papel, para o qual o Sr. Vacariano ficou olhando durante algum tempo, murmurando: “Bonito nome para um povoado... melhor que Povinho da Caveira”. Depois, guardando o papel no bolso, sorriu com seus fortes dentes de carnívoro e acrescentou: “Mas não acredito que essa estrela seja mesmo maior que o Sol”.
IV
Outro documento, pouquíssimo conhecido mas também importante, sobre o que se poderia chamar de pré-história de Antares é uma carta escrita pelo P.« Juan Bautista Otero, S. J., ao provincial de sua ordem, em Buenos Aires. Conta o missionário nessa missiva, datada de 4 de dezembro de 1832, que cruzou o Rio Uruguai e chegou ao Povinho da Caveira onde pediu e obteve permissão do dono daquelas terras, um certo Sr. Francisco Bacariano (sic) para fazer casamentos e batizados. Eis um trecho da referida carta:
Aqui vivem muitos índios e índias em estado de indi-gência e, o que é ainda pior, em pecaminosa mancebia. Por outro lado, a ausência de mulheres da raça branca neste aldeamento leva os homens de origem portuguesa a servirem-se dessas indígenas para a satisfação de sua luxúria. O próprio Sr. Bacariano, segundo me informou pessoa digna de fé, é pai de quase uma dezena de filhos naturais com várias destas süvícolas, mas não os batiza nem legitima. Horroriza-me a idéia de que um dia quando adultas, essas criaturas venham, sem o saber, a cometer incesto. Este é, porém, um problema que por ora temos de deixar nas mãos misericordiosas de Deus. Assim, nestes últimos três dias tenho celebrado muitos casamentos e batizado grande número de pagãos, não só crianças como também adultos. Ontem, domingo, rezei uma missa ao ar livre, com apreciável concorrência. O Sr. Bacariano não me parece ter muito respeito pela nossa religião ou por qualquer outra, mas apesar disso me tem tratado com consideração e até facilitado o meu trabalho apostolar. Perguntei-lhe, com o devido respeito, se não pretendia casar-se, e ele me respondeu que, dentro de poucos meses, iria a Alegrete para contrair núpcias com uma moça, de nome Angélica, filha dum abastado estancieiro daquela localidade.
V
Que esse casamento se realizou, é fato fora de dúvida, pois seu registro se encontra nos velhos livros da Matriz de Alegrete.
Chico Vacariano teve com sua esposa legítima ao todo sete descendentes-, entre homens e mulheres. Para grande alegria sua, nasceu-lhe primeiro um filho macho, que recebeu o nome de Antônio Maria.
Um ano após o nascimento do primogênito, teve Francisco Vacariano de enfrentar um longo período de dificuldades e agruras, durante o qual se viu mais de uma vez na iminência de perder suas terras, seu gado e o resto de seus bens. Foi por ocasião da chamada Guerra dos Farrapos deflagrada por milhares de homens daquela província que se 3rgueram em armas contra o governo imperial, então nas mãos dum Regente, pois o príncipe Dom Pedro, herdeiro do trono, não atingira ainda a maioridade.
Francisco Vacariano jamais tomou uma posição definida nessa luta. Se por um lado estava convencido da justiça da causa revolucionária, por outro o fato de os rebeldes haverem proclamado a República do Piratini lhe causava um certo desagrado, que ele exprimiu à sua mulher nestas palavras: “Um imperador é uma espécie de pai que a gente tem. Numa república me parece que todo o mundo fica meio órfão...”.
Assim, Chico Vacariano – como mais tarde viria a dizer com malícia um de seus inimigos – tratou de “jogar com pau de dois bicos”. Abrigava altemadamente em suas terras ora tropas revolucionárias ora tropas legalistas. Atendeu as requisições de cavalos, gado e mantimentos que lhe faziam ambas as facções. De resto, como poderia dizer “não” a maiorias armadas?
O que muito o favoreceu nesse jogo dùplice foi o fato de o Povinho da Caveira ser uma localidade de difícil acesso, pouco lembrada pela revolução e completamente esquecida pelo resto do mundo. Mesmo assim, duma feita Chico Vacariano e seus familiares tiveram de cruzar o rio às pressas, refugiando-se durante mais de um ano na Argentina.
A guerra civil durou quase um decênio inteiro. Vacariano costumava dizer que aquela campanha era a principal responsável pelos seus primeiros cabelos brancos e pelas precoces rugas que lhe vincavam a face. Terminada definitivamente a luta, Chico voltou ao pago, reconstruiu a sua casa, que na sua ausência quase virará tapera, e tratou de refazer aos poucos o seu rebanho bovino e recuperar o seu prestígio pessoal naquela região. O tratado de paz entre os Farrapos e os Imperiais tinha sido firmado com tanta dignidade e patriotismo, de ambas as partes, que duma simples leitura de seus termos não se poderia deduzir quem tinha sido o vencedor e quem o vencido.
Nunca ninguém perguntou a Chico Vacariano, pelo menos cara a cara, de que lado havia ele pelejado durante a guerra civil. E esse foi um assunto que o senhor de Povinho da Caveira sempre evitou pelo resto de sua vida natural.
O Povinho foi elevado a vila por alvará de 25 de maio de 1853, data em que recebeu oficialmente o nome de An-tares. Pouca gente entendeu a razão dessa mudança ou o sentido da nova denominação. Muitos, como Chico Vacariano, imaginavam que Antares significava “lugar das antas”. Houve até quem pensasse tratar-se do nome de um general brasileiro, herói de alguma daquelas muitas guerras contra os castelhanos.
Durante mais de dez anos Francisco Vacariano – como havia já acontecido desde 1829 no primitivo Povinho – foi a autoridade suprema e inconteste na vila. Nem mesmo o governo provincial tentava intervir na vida daquela pequena comunidade ribeirinha, que ainda fazia parte do município de São Borja.
VI
No verão de 1860 chegou ao conhecimento de Chico Vacariano que um certo Anacleto Campolargo, criador de gado e homem de posses, natural de Uruguaiana, ia comprar terras nas proximidades de Antares. Murmurava-se que esses Campolargos eram descendentes por linha reta dum tropeiro paulista que entrara um dia numa furna do cerro do Jarau – talvez na famosa Salamanca da antiga lenda – encontrando lá um fabuloso tesouro, pois de outro modo ninguém podia explicar como um modesto negociante de mulas andasse sempre com a sua guaiaca cheia de onças de ouro, rutilantes como sóis.
Mesmo sem jamais ter visto a cara de Anacleto Campolargo, o senhor de Antares fez o possível para que a transação não se consumasse. “Não quero intrusos por aqui!” – dizia. Ora, essas terras que Campolargo queria adquirir pertenciam a um chefe político de São Borja, homem influente, amigo íntimo do governador da província. Chico Vacariano não teve outro remédio senão “engolir o sapo”, segundo uma expressão sua.
Consumada a transação, Anacleto Campolargo mandou logo construir uma grande residência de alvenaria em Antares, na praça do Império, naquele tempo pouco mais que um potreiro onde cavalos e vacas pastavam.
A primeira vez em que Chico Vacariano e Anacleto Campolargo se defrontaram nessa praça, os homens que por ali se encontravam tiveram a impressão de que os dois estancieiros iam bater-se num duelo mortal. Foi um momento de trepidante expectativa. Os dois homens estacaram de repente, frente a frente, olharam-se, mediram-se da cabeça aos pés, e foi ódio à primeira vista. Chegaram ambos a levar a mão à cintura, como para arrancar as adagas. Nesse exato momento o vigário surgiu à porta da igreja, exclamando: “Não! Pelo amor de Deus! Não!”
Nenhum dos dois potentados parecia amar a Deus e muito menos ao vigário. Contiveram-se, porém, cada qual uma secreta razão particular, e depois retomaram ambos seu caminho, seguindo em sentidos opostos.
Foi assim que entre as duas dinastias antarenses, a dos Vacarianos e a dos Campolargos, começou uma feroz rivalidade, que deveria durar quase sete decênios, com períodos de maior ou menor intensidade, ao sabor de acontecimentos de ordem política, econômica ou puramente pessoal.
VII
Pouco a pouco Anacleto Campolargo foi conquistando amigos e impondo-se ao respeito e à estima de boa parte da população antarense. Era o primeiro homem na história daquela comunidade que ousava enfrentar o “Chico Vaca” – como lhe chamavam pelas costas os seus desafetos. Agressivo, opiniático, autoritário, o patriarca do clã dos Vacarianos era um sujeito sem tato. Suas palavras em geral soavam como chicotadas. O maioral dos Campolargos, porém, sinuoso e macio, cultivava o murmúrio, sabia “manipular” suas emoções e modular o tom da voz de acordo com a sua conveniência e os seus propósitos. Tinha um ar paternal, freqüentemente chamava o interlocutor de “meu filho”, se estava diante dum jovem, ou de “meu chefe”, se falava com um ancião. (“Já provou deste fumo? Não? É especial. Tem palha? Pois faça um crioulo. Pode ficar com esse naco. Ora, obrigado por quê?”)
Homem de algumas letras, Anacleto Campolargo organizou na vila o Partido Conservador, o que bastou para que Chico Vacariano, até então um tanto indiferente em matéria de política, tratasse de organizar o Partido Liberal.
Assim, Antares passou a ter dois senhores igualmente poderosos. Era exatamente essa igualdade de forças que impedia as duas facções de se empenharem em batalhas campais de extermínio. Continuando uma velha tradição, nas missas de domingo e dias santos, os conservadores sentavam-se nos bancos da direita, à frente do altar-mor, e os liberais nos da esquerda. Em seus sermões, pregados com voz trêmula, o vigário fazia acrobacias de retórica para não dizer nada que pudesse, mesmo de leve, descontentar qualquer dos dois grupos. Quando alguém lhe perguntava em particular para qual dos dois proceres antarenses inclinavam-se as suas simpatias, o pároco sussurrava, olhando dum lado para outro, a medo-, “Deus é o meu único chefe e a Igreja a minha única política”. Neutralidade, entretanto, era uma palavra inexistente no vocabulário político e social de An-tares. O forasteiro que ali chegasse, mesmo para uma visita breve, era praticamente obrigado a tomar logo partido.
Tanto os Campolargos como os Vacarianos eram criadores de gado e de cavalos. Foi, porém, o velho Anacleto o primeiro que começou a criação de ovelhas naqueles campos. Chico Vaca havia muito possuía lavouras de trigo, li-nho e arroz, razão por que era o mais rico senhor de escravos em toda a região.
VIII
Quando o Brasil entrou em guerra com o Paraguai, Vacarianos e Campolargos enrolaram os seus estandartes tribais e, à sombra da bandeira do Império, lutaram juntos contra a “indiada de Solano Lopes”. Chico Vacariano queixou-se-. “Só não me agrada é que desta vez temos castelhanos peleando de nosso lado”. Referia-se às forças da Argentina e da República Oriental do Uruguai, que haviam formado com o Brasil a Tríplice Aliança, para enfrentar o temível ditador paraguaio.
Como Anacleto e Francisco tivessem já passado da idade militar, cada um deles mandou dois de seus filhos alistarem-se como Voluntários da Pátria.
A guerra durou de 1865 a 1870. Foram tempos de tristeza, apreensões e durezas para os habitantes de Antares. Só depois que a campanha terminou é que chegou à vila a notícia de que Antônio Maria, o primogênito de Chico Va-cariano, havia tombado morto na batalha de Lomas Valen-tinas. Os dois Campolargos voltaram vivos mas estropiados. Benjamim, o mais velho, que havia perdido um olho num combate corpo a corpo, trazia as divisas de major e uma medalha militar. Seu irmão Gaudêncio tivera de amputar um braço. Antão Vacariano, que deixara a mão esquerda enterrada em solo paraguaio, voltara feito coronel e também condecorado por atos de bravura.
Foram esses três antarenses recebidos em sua terra com honras de heróis. Cada qual contava as suas estórias da campanha – algumas horripilantes, outras pitorescas e até jocosas. Num ponto, porém, Benjamim Campolargo e Antão Vacariano discordavam. É que cada um deles reclamava para si a dúbia glória de ter matado com um pontaço de lança o ditador Solano Lopes, na batalha de Cerro-Corá. A História, porém, desmentiu ambos.
IX
Graças aos bons ofícios e ao prestígio político de Ana-cleto Campolargo, amigo de figurões do governo da província, Antares foi separada de São Borja e elevada à categoria de cidade e sede de município, por Lei Provincial de 15 de maio de 1878. Ora, esse fora sempre um dos projetos mais caros a Chico Vacariano, agora já próximo dos oitenta anos. A idéia, porém, de que tudo se tinha conseguido por obra exclusiva de seu maior inimigo, deixou-o de tal maneira abalado que, uma semana antes de começarem os festejos com que se celebraria o grande evento, Chico Vaca caiu morto, fulminado pelo que um médico de São Borja diagnosticou como um “ataque de cabeça dos brabos”. Num gesto cavalheiresco, Anacleto transferiu os festejos para dezembro daquele ano, e até mandou em nome da família Cam-polargo uma coroa de flores para o defunto. Os Vacarianos recv saram a homenagem, vendo no gesto um intolerável “debique”.
Dezembro chegou, a cidade preparava-se para as grandes comemorações quando se espalhou a notícia de que o velho Campolargo, que estava na estância, fora picado por uma jararaca, tendo morrido em menos de meia hora, apesar das benzeduras de suas negras velhas e das ervas e un-güentos de seu curandeiro bugre.
Assim, quando entrou o ano de 1879, os dois grandes clãs de Antares tinham à sua frente novos chefes. Benjamim, o caolho, era o patriarca dos Campolargos e Antão, o maneta, o maioral dos Vacarianos – dois quarentões na força da vida. Ambos haviam jurado em silêncio, junto aos cadáveres paternos, continuar aquela luta de família até ao fim do Tempo.
X
Quando, anos mais tarde, a Princesa Isabel assinou o decreto em que se abolia a escravatura no Brasil, Antão Va-cariano disse a seus familiares que esse “ato de loucura” ia precipitar o fim do Império. Foi com relutância que, pelo menos formalmente, liberou seus escravos. Ora, Benjamim Campolargo, que havia alguns anos fundara o Grêmio Republicano de Antares, exultou com a notícia da Abolição, e mais tarde soltou vivas e foguetes ao saber que a República fora finalmente proclamada no Brasil.
Durante dias Antares esteve em pé de guerra. Mulheres e crianças foram proibidas de sair à rua. Na praça trocaram-se insultos e tiros. As vidraças do prédio do Grêmio Republicano foram partidas a pedradas e balaços por monarquistas enraivecidos. Um petardo explodiu contra a porta da residência dos Vacarianos. Houve cabeças quebradas e outros ferimentos corporais, leves uns, graves outros; morte, porém, nenhuma.
Fosse como fosse, o Império havia caído e os Vacaria-nos não tiveram outro remédio senão resignar-se. E, como faziam sempre que sofriam algum revés, fecharam a casa da cidade e refugiaram-se na estância, onde curtiram a sua vergonha, o seu despeito e o seu rancor. Antão verteu às escondidas algumas lágrimas quando soube que os republicanos haviam mandado o velho imperador para o exílio. “Este país está perdido!” – disse aos membros de sua família. – “O remédio agora é esperar a hora de fazer uma revolução e reconduzir o Velho ao trono.” Xisto, o primeiro Vacariano na ordem de sucessão, resmungou: “Essa república não se agüenta nas pernas. Dizem que o barulho já começou no Rio de Janeiro”.
Em 1890 a Matriz de Antares, cuja construção tinha sido iniciada havia vinte anos, foi inaugurada por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo. Benjamim Campolargo, Imperador Festeiro, mandou carnear seis de suas reses para dar churrasco ao povo, organizou uma quermesse e fez queimar fogos de artifício vindos da capital do Estado.
Os Vacarianos, que tinham prometido dar um sino de bronze para o novo templo, recusaram cumprir a promessa. Quando o vigário timidamente os interpelou, alegando que a Igreja nada tinha a ver com a política, Antão retrucou truculento: “Padre, nesse assunto nem Deus pode se dar o luxo de ser neutro!”
XI
Os historiadores de Antares, que não são muitos, até hoje temem lembrar certos “fatos desagradáveis” da crônica desse município. Num ponto, porém, parecem todos de acordo. A revolução federalista, que irrompeu em 1893, foi sem a menor dúvida o mais cruel e sangrento período da luta hereditária entre as duas famílias antarenses rivais. Antão Vacariano e seus irmãos, filhos, cunhados e sobrinhos, partidários apaixonados do famoso tribuno do Império, Gaspar da Silveira Martins, tomaram o lado dos revolucionários e, num golpe de surpresa, apossaram-se de Antares. Os Cam-polargos, porém, não tardaram a reagir e, ajudados por forças republicanas vindas de São Borja, retomaram a cidade. O combate travou-se ao anoitecer. A tropa dos Vacarianos retirou-se, com algumas baixas, e em desordem. Antão, que tinha ficado para trás comandando uma dúzia de companheiros numa operação de retaguarda, para proteger a fuga do grosso de sua força, foi feito prisioneiro. Trazido à presença de Benjamim Campolargo, trocou com este palavras e frases virulentas. O comandante vencedor, porém, recobrou a calma e disse:
– Sou um homem de bem. Respeito o direito dos prisioneiros de guerra. Vou poupar a sua vida, apesar de todas as barbaridades que você e seus bandidos praticaram enquanto estavam de donos da cidade.
Antão Vacariano encarou firme o adversário e replicou :
– Não peço nem aceito favor de nenhum caolho filho da puta! Me soltem, me devolvam a minha adaga e venham de um a um, que eu mostro quem é macho e quem não é.
Benjamim sacudiu a cabeça e soltou a sua risadinha gutural.
– Não sou prevalecido. Não brigo com maneta. Como única resposta Antão escarrou-lhe na cara. E
neste ponto as versões divergem. Afirmam alguns cronistas que, cego de ódio, Benjamim tirou sua faca da bainha, precipitou-se sobre o inimigo e sangrou-o ali mesmo. Outros dizem que mandou um de seus homens degolar o prisioneiro mais tarde, a frio. A verdade é que Antão Vacariano foi assassinado naquela noite, e seu corpo, envolto num lençol, enterrado no cemitério local, numa sepultura rasa e sem marca.
XII
A vingança dos Vacarianos não tardou. Meses depois, as forças federalistas, comandadas por Xisto, retomaram Antares e conseguiram prender Terézio, o mais novo dos Campolargos.
Xisto mandou reunir na praça os homens da cidade e ordenou que mulheres e crianças ficassem fechadas em suas casas. De mãos amarradas às costas, Terézio foi trazido à sua presença, em meio de grave silêncio. Ao redor dos dois adversários agrupavam-se aqueles guerreiros barbudos, sujos, suados e alguns até com a pele e as vestes ensangüentadas do último combate.
– É do conhecimento geral – bradou Xisto Vacariano – que os Campolargos assassinaram covardemente o meu mano Antão, que não teve nem o consolo de morrer como homem, peleando de arma na mão. Foi miseravelmente sangrado como um boi no matadouro. Pois agora chegou a nossa hora. Este Campolargo vai pagar pelos crimes do seu irmão e de todos os cachorros sarnentos de sua raça maldita!
Terézio estava livido. Mal moveu os lábios quando disse:
– Guerra é guerra. Não peço clemência.
– Não pedes nem te dou, corno filho duma grã-puta! Seguiu-se uma cena digna do pincel e da imaginação
dum Hieronymus Bosch. Xisto mandou amarrar o prisioneiro pelas pernas e pendurá-lo no galho duma árvore, com a cabeça a poucos centímetros do solo. Depois acercou-se de sua vítima, empunhando um grande funil de lata, cujo longo bico lhe enfiou às cegas no ânus, profundamente. Com a cara contraída de dor e vergonha, Terézio cerrou os dentes mas não deixou escapar o menor gemido.
Nenhum daqueles homens parecia saber ao certo o que Xisto pretendia fazer. Um deles cochichou ao ouvido dum companheiro: “Acho que o coronel vai dar uma lavagem de Pimenta e mostarda nesse ‘pica-pau’”.
Os planos de Xisto, porém, eram mais terríveis. Todos compreenderam o que ele ia fazer quando gritou: “Tragam o tempero pra salada!” e dois de seus homens, vindos do quintal do casarão dos Vacarianos, aproximaram-se, conduzindo com todo o cuidado, para não se queimarem, uma grande chaleira de ferro cheia de azeite em ebulição.
O céu estava azul e limpo. Uma brisa de primavera boba nas folhas das árvores e nas rosas de todo o ano que cobriam a cerca, ao lado da residência, agora deserta, dos Campolargos. Havia um grande silêncio na praça ensolarada.
Xisto murmurou: “Sabes o que vou te fazer, sacri-panta? Te incendiar as tripas”. A uma ordem sua, os dois homens começaram a despejar lentamente no funil todo o conteúdo da chaleira. Terézio Campolargo soltou um urro e começou a estrebuchar.
Apenas um homem, de todos quantos assistiam à cena, soltou uma risada. Os outros se mantiveram num silêncio taciturno. Romualdo, o mais moço dos Vacarianos, acercou-se do chefe da família e protestou: “Mas isso é uma barbaridade, mano!” Sem desviar o olhar da vítima, que continuava a berrar e espernear como um porco que está sendo sangrado, replicou: “Precisas aprender a lidar com o inimigo, menino. Se a coisa te faz mal ao estômago, toma um chàzinho de erva-doce e vai pra casa te deitar”.
A agonia de Terézio foi de curta duração. Quando suas convulsões cessaram, Xisto olhou para o céu, aliviado. Vieram contar-lhe então que o vigário, que estava na igreja, rezando, lhe pedia o corpo do jovem Campolargo para a encomendação e o sepultamento. Xisto sacudiu negativamente a cabeça. “Encomendar pra quê? Se esse ‘pica-pau’ tinha mesmo alma, a esta hora ela já entrou nos quintos do inferno.” Disse isto, voltou as costas para o cadáver e tornou à sua casa, onde o esperava um assado de paleta de ovelha, que ele comeu com a tranqüilidade dum justo.
XIII
Seis meses mais tarde os Campolargos retomaram An-tares num ataque de surpresa, à noite. Os Vacarianos retiraram-se com a sua tropa, deixando para trás, mortos ou feridos, vários companheiros. E quando, horas depois do combate, Xisto conseguiu reunir os seus homens no topo duma coxilha e começou a chamar pelos irmãos, deu pela falta de Romualdo e ficou frio. “Quem é que viu o Romualdo por último?” Ninguém se lembrava. Xisto deu-o por perdido, encolheu os ombros e pensou: na guerra como na guerra...
Mais tarde ficou-se sabendo que Romualdo na hora do inesperado ataque dos “pica-paus” estava na cama com uma china e, não tendo tempo de fugir, fora capturado.
Benjamim Campolargo esfregou as mãos num contentamento frenético. Tinha chegado a desejada hora de vingar a morte de Terézio.
No dia seguinte, por volta das oito da manhã (era já outono, dia frio e triste, céu cor de pêlo de capivara) Benjamim tratou de saber do vigário em que árvore seu irmão havia sido torturado. O padre deu-lhe a informação, mas disse: “Por tudo quanto existe de mais sagrado na vida, pelo amor de sua mãe e de seu falecido pai, eu lhe suplico que não sacrifique esse moço. Não foi ele quem matou o Terézio”.
Benjamim sorriu: “Padre” – disse ele com brandura – “eu lhe juro por Deus Nosso Senhor que não vou matar o Romualdo”. O sacerdote arregalou os olhos, surpreso. “Jura mesmo?” O outro ergueu a voz: “Juro! Aqui na frente dos meus companheiros! Pela honra da minha mãe, da minha mulher e das minhas irmãs, juro que vou soltar o moço, e vivo!” O vigário ficou pensativo, incrédulo ainda, mas nada disse. Lavou simbolicamente as mãos e voltou para a igreja.
Romualdo Vacariano foi trazido à presença de Benjamim Campolargo, que exclamou: “Tirem toda a roupa desse sujeitinho!” Três de seus homens obedeceram à ordem. “As botas também... Bom. Agora amarrem ele na mesma árvore onde penduraram o meu irmão. Assim não! Com a barriga contra o tronco, as pernas abertas... Isso!”
Um círculo duns cento e poucos homens formava uma espécie de muro ao redor da árvore. Como no dia da tortura e morte de Terézio, todas as mulheres e crianças tinham sido fechadas nas suas casas. Os companheiros entreolha-vam-se, sem saber ao certo o que seu chefe ia fazer. Benjamim chamou um dos seus companheiros, um negro alto e corpulento, e lhe disse:
– Elesbão, você é quem vai fazer o serviço no moço. O preto levou a mão à faca. Era um exímio degolador.
Benjamim sacudiu negativamente a cabeça.
– Não. O instrumento não é esse, mas o que você tem entre as pernas.
Elesbão não entendeu imediatamente o que o seu comandante queria. Quando compreendeu, murmurou, constrangido :
– Ora, coronel, eu nunca fiz dessas coisas.
– Mas vai fazet agora. E uma ordem.
– Por que logo eu?
– Porque sim.
– Aqui na frente de todo o mundo?
– É exatamente isso que eu quero: testemunhas. Elesbão olhou para o homem nu e depois para o seu comandante :
– Me prenda, coronel, me rebaixe de posto, mas uma coisa dessas eu não faço. Degolar é diferente...
Num átimo Benjamim examinou mentalmente a difícil conjuntura. Por um lado não podia ser desautorizado na frente dos seus próprios comandados; por outro, não queria castigar e talvez perder um companheiro do valor do Elesbão. Quem’ salvou a situação foi um caboclo parrudo e mal-encarado, o Polidoro, contumaz barranqueador de éguas, que se apresentou voluntário para executar a tarefa.
– Está bem – disse o chefe Campolargo. – Está na mesa. Sirva-se.
E o caboclo violentou Romualdo. Uns três ou quatro homens soltaram risadinhas. Outros, porém – a maioria – retiraram-se do local para não assistirem à cena degradante. Um capitão bigodudo chegou a gritar: “Isso não se faz a um macho, coronel! Por que não mata logo o miserável?” Benjamim, que saboreava o espetáculo, não deu a menor atenção ao protesto.
Consumado o ato, gritou: “Agora soltem a moça!” Dois soldados desamarraram Romualdo, que deu alguns passos, cambaleante, como se estivesse bêbedo, a cara aparvalhada. De repente soltou um urro, como um animal ferido de morte e, nu como estava, saiu a correr na direção do rio, atirou-se no chão, no alto da barranca, e rolou declive abaixo, até cair nágua. Pôs-se a nadar, e, a uns trinta metros da margem, deixou-se afundar. Seu corpo jamais foi encontrado.
Depois desses atos de violência e perversidade ninguém podia sequer imaginar que fosse um dia possível para Va-carianos e Campolargos voltarem a viver na mesma cidade. Terminada a revolução, com a vitória dos republicanos, Xisto Vacariano emigrou com todo o seu clã para a Argentina, onde permaneceu por dois anos. Durante essa longa ausência, um amigo seu, homem de bem e neutro em política, tomou conta da estância e dos outros negócios dos Vacarianos e, com o auxílio de amigos influentes, conseguiu evitar que os Campolargos se apossassem discriciona-riamente dos bens móveis, imóveis e semoventes de seus velhos adversários.
XIV
Em 1898 Xisto Vacariano’tomou um vapor em Buenos Aires e viajou até ao Rio de Janeiro onde – conta-se – se avistou com o senador Pinheiro Machado, figura prestigiosa da política nacional. Eram velhos conhecidos. Havia alguns anos, o prócer republicano hospedara-se na estância dos vacarianos e, à hora do jantar – conversa vai, conversa vem —, acabaram descobrindo que Pinheiro Machado, que ?e alistara com apenas dezesseis anos como Voluntário da ratria, durante a Guerra do Paraguai, havia servido no regimento de que Xisto Vacariano era oficial. Comemoraram a descoberta bebendo vinho do Porto e Xisto deu de presente ao futuro senador da República um de seus cavalos de purosangue e um par de estribos de prata feitos na Bélgica.
Xisto valia-se agora desta amizade para tentar resolver a sua situação e a de toda a sua família. Pinheiro Machado escutou-o com atenção e prometeu “amansar” os Campolar-gos, pelos quais – confessou – não morria de amores, apesar de eles serem seus correligionários. Mandou uma carta a Júlio de Castilhos – então Presidente do Estado – explicando-lhe a situação e pedindo a sua intercessão no assunto. Castilhos escreveu a Benjamim Campolargo reco-mendando-lhe fizesse “vista grossa” ao reaparecimento dos seus inimigos Vacarianos em Antares.
Benjamim levou alguns dias para “digerir” essa carta. Respondeu, porém, a ela declarando que faria como seu “prezado chefe e amigo” pedia. Tinha antes escrito ordenava mas passou a carta a limpo para trocar o verbo. Assim os Vacarianos foram voltando pouco a pouco para Antares. com todos os membros de suas famílias.
Naquelas primeiras semanas após a volta dos proscritos (termo usado por um jornalista republicano local) não só a população de Antares como a própria cidade – casas, muros, calçadas, plantas, pedras – pareciam viver em estado de extrema tensão, na expectativa do primeiro encontro físico entre um Campolargo e um Vacariano.
Xisto e Benjamim defrontaram-se uma tarde à frente do Grêmio Republicano. O primeiro pigarreou forte. O outro fuzilou o inimigo com um olhar de seu único olho válido. Nada disseram nem fizeram. Cada qual seguiu seu caminho e Antares e os antarenses respiraram desoprimidos.
XV
Antares celebrou com grandes festas a entrada do século xx. Armou-se no centro da praça um carrossel, de propriedade dum espanhol residente em Uruguaiana. À tarde houve Cavalhadas e à noite quermesse. Acenderam-se fogueiras onde se assaram batatas-doces e lingüiças. Num grande tablado erguido à frente da Matriz, houve danças a noite inteira, ao som de músicas tocadas pelos melhores san-foneiros da cidade e redondezas. À meia-noite em ponto o sino da igreja rompeu a badalar festivamente, homens davam tiros de pistola para o ar, foguetes de lágrimas espocavam nas alturas, derramando sobre os telhados e o rio chuveiros de estrelas multicores. Homens, mulheres e crianças abraçavam-se gritando, chorando e rindo. Benjamim Campolar go, que assistia à festa da sacada de sua residência, desce« para a praça e confraternizou com o povo. Sentou-se con. a esposa à cabeceira duma mesa de cinqüenta metros de comprimento, ali ao ar livre, e deu início à grande ceia – carne de gado, ovelha e porco, galinhas e patos assados, pratarraços de arroz de carreteiro e, no firn, sobremesas feitas pelas melhores doceiras da cidade. E, a todas essas, dê-lhe vinho, dê-lhe cachaça, dê-lhe cerveja...
Os Vacarianos, esses celebraram o grande acontecimento em família, sem se misturarem com “a canalha republicana”.
A pessoa escolhida pelo intendente para falar em nome da municipalidade – um professor – saudou o século xx como a era da Luz e do Progresso, a qual, “mercê das novas invenções e descobertas do saber humano, haverá de proporcionar aos povos de todas as nações do Universo uma vida de conforto, fartara e harmonia, como nunca na História da Humanidade”.
Já quase ao clarear do dia, intoxicados de bebidas alcoólicas, dois machos do clã dos Campolargos – primos-irmãos ainda na casa dos vinte – estranharam-se, trocaram primeiro palavrões, depois bofetadas e finalmente facadas. Um deles recebeu um pontaço de faca no ventre (superficial) e o outro deixou no chão da praça um naco de seu braço esquerdo. O velho Benjamim teve de intervir pessoalmente, ajudado por dois irmãos, para evitar que o conflito se generalizasse num “pega pra capar” desastroso.
Ao saber do incidente, no dia seguinte, Xisto Vacaria-no sorriu e disse: “Começou bem pra nós esse tal de século xx”.
XVI
A esta altura da presente narrativa é natural que o leitor esteja inclinado a perguntar se não existiam em Antares homens de bem e de paz, com comportamento e sentimentos cristãos. A pergunta é pertinente e a resposta, sem a menor dúvida, afirmativa. Havia, sim, e muitos. Desgraçadamente seus ditos, feitos e gestos não foram recolhidos pela história oficial. Apenas uns poucos deles incorporaram-se à tradição oral da cidade e do municipio-, os restantes perderam-se para sempre no olvido.
Os livros escolares, cujo objetivo é ensinar-nos a história da nossa terra e do nosso povo, são em geral escritos num espírito maniqueísta, seguindo as clássicas antíteses – os bons e os maus, os heróis e os covardes, os santos e os bandidos.
Via de regra, não se empregam nesses compêndios as cores intermediárias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truismo de que a História não pode ser escrita apenas em preto e branco.
Por motivos puramente de economia de espaço – uma vez que o objetivo desta narrativa é tecer um sumário pano de fundo histórico contra o qual apresentar oportunamente os macabros eventos daquela sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963 – estas páginas lamentavelmente têm seguido o espírito dos citados livros escolares, focando de preferência as duas grandes oligarquias que em Antares, durante cerca de setenta anos, disputaram o predomínio político, social e econômico. Ficaram assim na penumbra do segundo, do terceiro e do último plano todos aqueles que – para usar duma expressão de Spengler – não “fazem” mas “sofrem” a História, a saber: estancieiros menores, agricultores de minifúndios, membros das profissões liberais e do magistério e ministério públicos, funcionários do governo, comerciantes, artesãos e por fim essa massamorda humana composta de párias – brancos, caboclos, mulatos, pretos, curibocas, mamelucos – gente sem profissão certa, changadores, índios vagos, mendigos, “gentinha” molambenta e descalça, que vivia num plano mais vegetal ou animal do que humano, e cuja situação era em geral aceita pelos privilegiados como parte duma ordem natural, dum ato divino irrevogável.
XVII
Tinha razão o editorialista do semanário A Verdade (fundado em 1902) quando escreveu que o Progresso se aproximava de Antares com botas de sete léguas. Nos tempos em que a localidade era ainda conhecida pelo nome de Povinho da Caveira, Chico Vacariano, seu fundador, sempre que tinha de mandar um recado, verbal ou escrito, a uma pessoa que morasse longe, valia-se dum portador, dum “chas-que”, dum “próprio”. Em fins do século xix, Antares gozava já dos benefícios e facilidades do telégrafo, isso para não falar no serviço postal.
Estradas de ferro ligavam muitas cidades do Rio Grande do Sul umas às outras, e o apito de suas locomotivas assustava os bichos do campo e do mato, ao mesmo tempo que a fumaça de suas chaminés sujava aqueles ares puros. Não parecia otimismo exagerado esperar-se que dentro duns dez anos, no máximo, seus trilhos fossem estendidos até a Antares. Agora, na primeira década do novo século, surgia o telefone, que Xisto Vacariano afirmava ter sido inventado por Dom Pedro II, com a colaboração dum mecânico norte-americano, seu amigo particular. O primeiro a instalar na sua casa um desses aparelhos foi Benjamim Campolargo, que corria sempre na dianteira de seu rival, em matéria de empreendimentos progressistas.
Os “próprios” e os “chasques” continuavam ativos e uteis. As mulheres, as crianças e os velhos usavam como veículos de transporte a aranha, a diligência e outras carruagens de tração animal. Carretas ainda rechinavam, ronceiras puxadas por bois lerdos, através daquelas campinas. Os antarenses em sua maioria achavam – e nisso não eram diferentes de outros campeiros do Rio Grande do Sul – que o único meio de locomoção digno dum homem macho continuava a ser o cavalo. Em certos casos tinha-se a impressão de que esse animal era um prolongamento do corpo do cavaleiro, assim como a pistola ou o revólver faziam já parte da sua anatomia.
Quando se instalou em Antares a primeira usina elétrica, Xisto Vacariano, sentado à cabeceira de sua mesa à hora do jantar, disse aos filhos: “No Povinho, o avô de vocês vivia muito bem se alumiando com lâmpada de óleo de peixe e vela de sebo. A máquina mais complicada que ele conhecia era o monjolo. Pra mim, lampião de querosene ou acetilene já é luxo demais. Ninguém me convence de mandar botar na minha casa a tal de luz elétrica. Dizem que esse negócio dá choque, pode até matar uma pessoa”.
Quando, no inverno de 1912, o intendente mandou instalar luz elétrica nas ruas da cidade, o velho Eusébio Reis, que durante mais de vinte e cinco anos exercera sozinho as funções de acendedor de lampiões, caiu numa tão grande depressão nervosa, que numa madrugada de julho enforcou-se num dos postes da iluminação moderna, e seu corpo amanheceu hirto, coberto de geada, balançando-se dum lado para outro, sacudido pelo vento gelado que soprava das bandas dos Andes.
Para surpresa geral, foi um Vacariano quem, em 1911, trouxe para Antares o primeiro automóvel, um Oldsmobile, que mandara vir de Buenos Aires. Depois de aprender a dirigir o veículo, um dos seus maiores prazeres era passear nele, de tolda arriada, pela cidade, apertando provocadora-mente na buzina de fonfom sempre que passava pela frente do solar dos Campolargos. Estes não tardaram em mandar buscar da Alemanha um automóvel Benz.
XVIII
Como o Dr. Júlio de Castilhos estivesse seriamente enfermo, o bacharel em Direito Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, que havia sido seu chefe de polícia, sucedera-o em 1898 como Presidente do Estado, bem como no de chefe do Partido Republicano gaúcho. Castilhos faleceu em 1903, durante a operação de garganta a que fora submetido. Benjamim Campolargo, acompanhado de dois de seus filhos, embarcou às pressas para Porto Alegre, a fim de assistir às exéquias de seu chefe e amigo. Chegou tarde, mas aproveitou a oportunidade para visitar o Dr. Borges de Medeiros, que ainda não conhecia pessoalmente. Achou-o seco, formal mas digno. Ouviu, de várias pessoas importantes da capital, os maiores elogios ao caráter do presidente. Ninguém mais probo, ninguém mais justo, ninguém mais sábio – dizia-se. “Um verdadeiro varão de Plutarco” – afirmavam os edítorialístas de A Federação, o órgão oficial do Partido Republicano Rio-Grandense. Benjamim Campolargo, graças talvez a uma autovacina, voltou para Antares incontami-nado pelas virtudes morais de seu chefe. Continuou a perseguir a oposição, a coagir juizes, promotores e jurados. Governava despoticamente o município de Antares, onde os maragatos eram minoria. Tornou-se assim, como tantos outros chefes políticos municipais do Rio Grande do Sul, uma espécie de “príncipe eleitor”. Reeleito em 1903, 1913 e 1918, Borges de Medeiros exerceu durante vinte anos a sua “ditadura científica” de inspiração positivista, fechado no palácio do governo e quase divinizado como um Lama do Tibete.
Sem recursos humanos para enfrentar seus inimigos crônicos, os Vacarianos agora competiam com eles em outros terrenos que não o da política. Todos os fins de ano, quando se tratava de eleger uma nova diretoria para o Clube Comercial, a mais fina sociedade local, havia sempre uma chapa apresentada pelos Campolargos, a oficial, e outra pelos Vacarianos. O pleito era precedido de propaganda, cabala, pressões de toda sorte, e até de suborno. No dia da eleição os eleitores compareciam à sede do clube armados de punhais e revólveres, e era raro o ano em que não houvesse bate-boca, troca de insultos, de bofetadas e até de tiros.
Desde 1915 o futebol – “o salutar esporte bretão”, segundo um redator de A Verdade – tornara-se popular em Antares. Os Campolargos haviam fundado o Esportivo Mis-sioneiro e os Vacarianos favoreciam o Fronteira F. C. Não se tem notícia duma partida entre esses dois adversários que não haja terminado sem luta corporal entre seus torcedores, isso para não falar nas trocas de caneladas e pe-chadas entre os jogadores, em disputa da bola. Conta-se a seguinte estória, que parece ter sido já incorporada ao folclore futebolístico gaúcho. O Fronteira e o Missioneiro defrontavam-se numa partida decisiva de campeonato, o jogo aproximava-se do final e nenhuma das duas esquadras conseguira ainda marcar um ponto sequer. No último minuto do jogo, Pollito, atacante do Missioneiro – um argentino “contrabandeado” do outro lado do rio, a peso de ouro – driblou quase toda a defesa do Fronteira e ia na certa marcar um tento quando um Vacariano bombachudo que estava ali por perto saltou rápido para dentro do gramado, rebolou no ar o seu laço e pealou o castelhano, que caiu de costas, batendo com a nuca no chão. O goleiro do Fronteira saltou para agarrar a bola, mas um dos Campolargos alvejou-a com um tiro de revólver, e o balão se desinflou com um longo suspiro nas mãos do keeper, que soltou um berro de horror. O público invadiu o campo e então começou uma verdadeira batalha campal que durou mais de meia hora, pois soldados da polícia municipal, chamados para impor a paz, acabaram tomando partido e participando do entrevero.
XIX
A Primeira Guerra Mundial chegou a Antares principalmente através das páginas róseas do Correio do Povo. Pela primeira vez em mais de cinqüenta anos Campolargos e Vacarianos encontravam-se por assim dizer do mesmo lado, na mesma trincheira, alvejando simbolicamente um inimigo comum, os boches. Xisto e Benjamim admiravam a França, detestavam a Alemanha e consideravam o Kaiser um bandido desalmado, um bárbaro. Papagaiando frases de jornais e folhetos de propaganda, ambos afirmavam que os
Aliados deviam a qualquer preço “salvar a Civilização das garras sanguinárias dos hunos”.
A década de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto de ordem material como intelectual. Durante esse pós-guerra, o ritmo de construções de casas particulares acelerou-se. Os Vacarianos reformaram o seu casarão – “uma simples meia-sola”, disseram os seus desafetos. Os Campolargos construíram um sólido palacete de dois andares.
Em 1924 uma firma norte-americana instalou um frigorífico nos arredores da cidade – o que levou o editorialista do diário local a afirmar que Antares, até então um município exclusivamente agropastoril, começava auspiciosamente a industrializar-se.
O telégrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rádio – contribuíram decisivamente para aproximar o mundo de Antares ou vice-versa. Forasteiros também muito faziam pelo progresso social e cultural da cidade: magistrados, promotores públicos, funcionários do governo estadual e federal, caixeiros-viajantes... Era, porém, de lamentar que Antares não possuísse, como São Borja, uma guarnição militar federal, um batalhão que fosse.
Em 1925 os Vacarianos haviam comprado o primeiro sedan Chrysler que jamais sentou suas rodas nas ruas de Antares. Numa espécie de esperada represália, os Campolargos não tardaram a adquirir na Argentina um Studeba-ker preto que, na opinião de seus rivais, tinha o aspecto dum carro fúnebre.
Foi também nesse ano de 1925 que a polícia descobriu e prendeu o primeiro comunista da história de Antares, um certo Mário Pinho, um tipògrafo, natural de Santiago do Boqueirão, homem pálido e triste que se gabava de ter lido de fio a pavio, em tradução espanhola, O Capital de Karl Marx. O agente do “olho de Moscou” passou um mês na cadeia e, depois de solto, mudou-se para Santa Maria.
Nos bailes do Clube Comercial moças e rapazes das Melhores famílias locais dançavam o charleston, sob o olhar crítico das matronas. Num sarau de arte, no solar dos Cam-polargos, um forasteiro recitou versos modernos – que ninguém entendeu – de Oswald e Mário de Andrade. Antares, pois, atualizava-se, integrando-se na Era do jazz.
XX
Em 1923 os partidários do Dr. Assis Brasil – aliança de maragatos com dissidentes do Partido Republicano – haviam feito a sua revolução, protestando contra mais uma reeleição do Dr. Borges de Medeiros, confirmada pela Assembléia estadual, mas considerada pela oposição uma farsa fraudulenta, pois o candidato oficial republicano – alegavam seus inimigos – não obtivera os três quartos da votação total exigidos nesse caso pela Constituição.
Xisto V acariano a princípio pensara em ficar sossegado em sua estância (não tinha muita simpatia pessoal por Assis Brasil), mas como lhe tivesse chegado aos ouvidos o rumor de que Benjamim Campolargo ia mandar prender todos os Vacarianos machos, decidiu “ir para a coxílha” com os filhos, irmãos, genros, netos, sobrinhos, amigos, peões e demais cumpinchas: cento e vinte homens ao todo. Embora já na quadra dos oitenta, Xisto mantinha-se ainda ereto em cima do cavalo, e sentia-se apto para enfrentar mais uma campanha em sua vida. Assim, os Vacarianos se juntaram às forças de Honório Lemes. Evidenciara-se desde o primeiro momento da revolução que o número de combatentes republicanos era consideravelmente maior e mais bem armado que o dos “bandoleiros”, pois o governo estadual, além de seus partidários civis que formavam as tropas irregulares, contava também com o apoio da sua Brigada Militar, força bem armada e aguerrida.
O velho Vacariano explicava aos seus comandados: “O Gen. Honório tem razão. O plano não é dar combate de frente aos ‘chimangos’, mas negacear, atacar de surpresa, fugir na hora do aperto e voltar depois quando menos nos esperarem. O nosso chefe conhece a Serra do Caverà como a palma de suas mãos. O inimigo não ousa atacar o homem no chão dele. Assim, vamos embromando esses borgistas para provocar uma intervenção federal. O Presidente da República não gosta do Borjoca. Está louco pra meter sua cucharra na nossa panela”.
Não se teve notícia de nenhum combate, nem mesmo duma escaramuça passageira, entre os guerreiros dos Vacarianos e os dos Campolargos.
A intervenção federal foi finalmente feita no Rio Grande do Sul e dela resultou um tratado de paz. Benjamim Campolargo cantou vitória, mas Xisto Vacariano disse: “Bobagem desse caolho caduco! Quem ganhou a parada fomos nós. Com meia dúzia de espingardas descalibradas, revólveres enferrujados e lanças de guajuvira, os assisistas conseguiram o que queriam: esse tratado que reforma a Constituição do Estado, que os castilhistas consideravam intocável, e proíbe a reeleição do Chimango!”
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